Eu sou escritor porque escrevo, não porque tenho algum livro pelo mundo. Escrevo quando eu quero.
Eu não tenho dia, hora ou lugar marcado para escrever. Escrevo quando a palavra me atravessa, quando necessito, quando existe falta, quando existe desejo, quando há algo dentro de mim que pede passagem.
Não escrevo quando um outro pede. Não escrevo quando um outro manda. Escrevo na medida em que escrevo.
Escrevo para me desconhecer. Enganam-se aqueles que leem minhas palavras e acreditam que escrevo apenas para encontrar respostas sobre mim, sobre minha infância ou sobre as raízes que nela permanecem. Talvez eu escreva justamente para encontrar aquilo que não sei que procuro.
Escrevo para ser escritor, não para cumprir a obrigação de ser autor. Se um dia eu for chamado de autor, que seja pela única obra que verdadeiramente me pertence: a autoria da minha própria história.
Não seria honesto negar que os livros que escrevi carregam minha assinatura. Eu sou autor deles. Mas eles estão lá, no mundo, enquanto eu continuo aqui, em movimento, sendo atravessado por novas palavras e novos silêncios.
Sou escritor porque escrevo. Não porque publico. Não porque alguém espera. Não porque uma regra determina.
Não gosto de ser adestrado pela expectativa do outro.
Escrevo porque escrevo.
E quando me perguntam por que escrevo, talvez eu morra sem encontrar uma resposta definitiva. Ou talvez a resposta já exista em algum lugar desconhecido dentro da minha alma, nesse lugar onde a palavra nasce antes mesmo de saber seu próprio nome.
Talvez escrever seja isso: uma tentativa eterna de tocar aquilo que permanece impossível de ser completamente dito.
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