Escrever é fracassar diante daquilo que nunca aceita ser dito
Há dias em que a linguagem parece insuficiente. As palavras chegam, mas não alcançam aquilo que realmente pulsa. Existe sempre um resto, um excesso, algo que insiste em escapar. Talvez seja justamente esse impossível que sustente o desejo de escrever.
Escrever nunca foi um exercício de respostas. Sempre foi uma tentativa de aproximação. Não da verdade, porque ela jamais se entrega por inteiro, mas daquilo que insiste em se esconder enquanto acreditamos conhecê-la.
O inconsciente trabalha sem pedir licença. Ele não anuncia sua chegada, não explica seus movimentos e tampouco se preocupa em ser compreendido. Apenas insiste. Retorna. Repete. Faz da linguagem um lugar onde o sujeito encontra mais perguntas do que certezas.
Talvez toda escrita seja um fracasso. Não o fracasso da derrota, mas o fracasso inevitável de tentar dizer aquilo que jamais aceita ser completamente dito. É justamente nessa impossibilidade que a linguagem continua produzindo sentido. Se tudo pudesse ser nomeado, a escrita perderia sua razão de existir.
Escrevemos para tocar o indizível, ainda que ele jamais se deixe possuir. Cada palavra é uma aproximação e, ao mesmo tempo, um afastamento. A linguagem revela enquanto esconde. Nomeia enquanto deixa escapar. É por isso que escrever nunca é um ato de domínio. É um encontro permanente com aquilo que nos excede.
A cada palavra escrita, alguma versão de nós se desfaz enquanto outra, ainda desconhecida, começa a surgir. Não escrevemos apenas um texto. Somos escritos por ele.
Há quem acredite que reconstruir-se seja recuperar aquilo que um dia foi perdido. Não penso assim. Nada retorna exatamente como era. Uma taça recomposta continua sendo taça, mas suas marcas contam uma história que o vidro intacto jamais conheceria. O mesmo acontece com o sujeito. As fissuras não anulam a existência. Elas também a escrevem.
A falta permanece. Não como um erro a ser corrigido, mas como condição da própria existência. É ela que faz o desejo continuar respirando. É ela que impede que a vida se transforme numa resposta pronta.
Talvez por isso a escrita nunca termine quando o ponto final é colocado. O texto se encerra. O sujeito, não.
Continuamos sendo atravessados por aquilo que não conseguimos nomear. Continuamos tentando dizer o que a linguagem apenas contorna. Continuamos escrevendo não para vencer o silêncio, mas para compreender que o silêncio também fala.
Talvez exista uma beleza discreta nisso. A de reconhecer que nem tudo precisa ser explicado para existir. Algumas verdades preferem permanecer entre uma palavra e outra, exatamente no espaço onde a linguagem fracassa e o humano começa.
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