A travessia do indizível: aquilo que jamais existiu. Entre aquilo que a linguagem abandona e o que a alma insiste em atravessar.
A travessia do indizível: aquilo que jamais existiu
Entre aquilo que a linguagem abandona e o que a alma insiste em atravessar.
A imensidão das horas silenciosas não procura a escrita. Talvez porque existam momentos em que até as palavras compreendem que não possuem força suficiente para alcançar aquilo que acontece dentro de uma existência. Há dores que recusam tradução, sentimentos que permanecem suspensos entre o pensamento e o silêncio, como se esperassem por uma linguagem que ainda não foi inventada.
Nem tudo aquilo que atravessa uma alma deseja ser revelado. Algumas experiências preferem permanecer no lugar onde nasceram: um território invisível entre a noite e o amanhecer, entre aquilo que fomos e aquilo que nunca conseguimos ser. Existem acontecimentos que passam por nós sem deixar marcas aparentes, mas transformam para sempre os lugares mais profundos onde ninguém consegue chegar.
Meus maiores segredos não são aqueles que escondo dos outros. São aqueles que nem eu consigo confessar para mim mesmo. Permanecem guardados em alguma parte desconhecida da consciência, onde a memória toca com cuidado, como quem sabe que certas portas, quando abertas, revelam paisagens difíceis demais de suportar.
Às vezes, a televisão permanece ligada não para ser assistida, mas apenas para preencher o espaço onde o silêncio parece pesado demais. As imagens passam, as vozes continuam existindo, mas eu permaneço distante, como alguém observando a própria vida através de uma janela que não consegue atravessar. Escutar, nesses momentos, parece suficiente. Porque há dias em que ouvir o mundo é mais fácil do que tentar explicar o que acontece dentro de mim.
Existem instantes em que me sinto entre a vida e aquilo que se aproxima dela sem nunca alcançá-la completamente. Não é ausência. É excesso. Excesso de lembranças, de perguntas, de sentimentos que ficaram sem destino. Como se carregasse dentro de mim uma biblioteca inteira de livros que nunca foram escritos.
Se alguém me perguntasse para me definir em uma palavra, talvez eu respondesse apenas duas: não sei. E talvez essa seja a resposta mais verdadeira que já encontrei. Porque o meu não sei não é vazio. Ele carrega marcas, cortes invisíveis, afetos perdidos, abraços que não aconteceram e partes de mim que continuam procurando um lugar onde possam repousar.
Há dores que não pedem solução. Pedem apenas existência. Pedem um espaço onde possam respirar sem serem julgadas.
Sou como o mar. Não pela sua beleza, mas pela sua incapacidade de permanecer igual. Há momentos em que encontro uma calma quase absoluta, como se nenhuma tempestade pudesse me alcançar. Em outros, sou atravessado por ondas que ninguém vê. Minha própria maré muda sem pedir permissão. Às vezes transbordo. Às vezes desapareço lentamente dentro de mim mesmo.
O mar não deixa de ser mar quando está em tempestade. Talvez eu também não deixe de ser quem sou quando estou perdido.
Talvez o espírito seja apenas uma tentativa da existência de compreender aquilo que nunca aceitou explicação. Talvez exista dentro de nós uma linguagem anterior às palavras, uma espécie de silêncio antigo que continua tentando dizer aquilo que a consciência não consegue decifrar.
Acendo um cigarro e observo a fumaça desaparecer. Ela atravessa o ar com uma leveza que parece distante de tudo aquilo que carrego. Enquanto ela se desfaz, percebo que existem pesos que não pertencem ao corpo, mas àquilo que permanece escondido atrás dele.
Nenhuma medida seria suficiente para explicar certas dores. Nenhuma quantidade seria capaz de traduzir aquilo que atravessa uma alma em silêncio. Porque algumas coisas não pertencem ao mundo dos números. Pertencem ao indizível.
A vida talvez seja construída sobre essa palavra que tantas vezes tentamos evitar: talvez. Talvez amanhã. Talvez depois. Talvez nunca. Recomeçar, reconstruir, refazer-se depois de tudo aquilo que parecia impossível.
Entre a travessia e os restos da minha própria linguagem, escrevo aquilo que talvez seja a minha maior contradição: tentar compreender alguém que continua mudando dentro de mim.
Culpo o tempo pelas ausências, pelas demoras, pelos caminhos interrompidos. Mas talvez o tempo apenas tenha feito aquilo que sempre fez: continuar passando enquanto eu tentava juntar os pedaços que ficaram para trás.
Escrever talvez seja minha maneira de permanecer. Não porque a escrita responda minhas perguntas, mas porque ela impede que certos fragmentos desapareçam sem testemunha. Cada palavra recolhe uma parte esquecida. Cada frase tenta reconstruir algo que a vida deixou espalhado.
Talvez eu escreva para desaparecer entre as linhas e retornar em algum outro momento, quando minhas próprias palavras forem capazes de me revelar aquilo que ainda não consigo compreender.
Quando?
Não sei.
Talvez a própria existência seja feita dessa resposta incompleta. De caminhos que se cruzam, retornos inesperados, partidas silenciosas e lugares onde nunca chegamos completamente.
Quando o amanhecer surge, minha escrita parece partir. Mas para onde ela vai? Talvez para algum lugar junto da minha própria alma. Talvez para um espaço onde tudo aquilo que não consegui dizer permanece esperando por um novo encontro.
E então ela retorna.
Trazendo aquilo que eu ainda não consigo nomear.
Talvez seja esse o verdadeiro sentido da escrita: não encontrar respostas, mas criar um lugar onde as perguntas possam continuar existindo.
Porque existem lugares dentro de nós onde o silêncio não significa ausência.
Significa tudo aquilo que ainda está tentando nascer.
E talvez seja nesse espaço entre a noite e o amanhecer, entre o que fui e o que jamais consegui ser, que acontece a verdadeira travessia do indizível.
Jorge Lannes Junior
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