A Parte de Mim que Escreve na Escuridão que Nem Eu Conheço
Por que a fumaça escolhe um lado, depois outro, e às vezes sobe como se soubesse o caminho do céu? Ah, que ingenuidade a minha. Estou fumando. Acabei de acender um cigarro e de tomar um gole de Coca-Cola. Talvez eu procure, nesses pequenos rituais, traduzir a alma para um invisível que não consigo enxergar. Nem mesmo nas palavras que escrevo e depois releio consigo vê-lo por inteiro.
Entre um verso e outro, sou apenas um aprendiz da escrita. Mas como se aprende a escrever? Talvez na escola, talvez com um professor, talvez na vida, ou quem sabe na morte.
A morte me chama, mas permaneço distante dela. Já bati à sua porta muitas vezes. Há, porém, uma outra que cuida de mim, e as duas parecem discutir em silêncio sobre a quem pertenço.
Escrevo para despertar a alma e libertar esse invisível que habita entre o que sei e o que ignoro de mim. Escrevo para escutar a linguagem, o eu, o inconsciente; para me tornar atento, curioso e, por alguns instantes, consciente daquilo que me atravessa.
Não escrevo para agradar. Digo isso a mim mesmo.
Escrevo para passar o tempo, embora ultimamente seja o tempo que passe sobre mim, às vezes com o peso de uma tempestade, às vezes com a leveza de um sopro.
E sempre que anoitece, tudo parece a mesma coisa, embora nunca seja. Ainda nem anoiteceu, mas uma hora a noite virá. São dias sobre dias, noites sobre noites, madrugadas empilhadas umas nas outras.
Talvez eu escreva para cicatrizar a alma, essa pele invisível que carrego dilacerada. Porque há feridas que não pedem remédio nem repouso; pedem linguagem. E talvez escrever seja apenas isto: sentar-se diante do próprio abismo e, em vez de cair, transformá-lo em palavra.
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