Aquilo Que Nenhum Laudo Consegue Dizer
Onde estará o meu transtorno mental? No papel que o nomeia ou na estrutura clínica que me sustenta? Talvez ele habite esse intervalo entre uma palavra e outra, esse lugar estranho em que o sujeito tropeça em si mesmo e, ainda assim, continua existindo. Porque há nomes que tentam dizer quem somos, mas nenhum deles consegue alcançar aquilo que em nós insiste, escapa e permanece sem tradução.
Será que está na primeira gaveta do meu criado-mudo? Ou na segunda? Ou na terceira? Ou naquela pasta que talvez eu tenha perdido por alguma rua, em algum dia de distração? Talvez eu tenha esquecido o papel, mas o papel nunca foi capaz de me guardar. Nenhum documento é grande o suficiente para conter uma vida inteira, um sofrimento inteiro, uma subjetividade inteira.
Ou será que ficou na jaqueta esquecida na clínica? Na farmácia por onde passei? Debaixo da cama? Dentro de algum livro abandonado pelo tempo? Quem sabe entre as páginas de Freud, como uma folha esquecida entre conceitos e teorias? Talvez o diagnóstico tenha se perdido justamente porque nunca soube onde me encontrar. Talvez ele tenha ficado para trás e eu tenha seguido adiante.
Mas pouco me importa onde ele está, porque eu sei onde estou. Convivo com a bipolaridade, e isso não posso negar. No entanto, ela não me reduz, não me esgota e não encerra quem sou. Talvez, sem esse resto que me atravessa, eu não seria eu, nem a linguagem que habita em mim, nem as palavras que escrevo para suportar a existência. Sou feito de contradições, de faltas, de excessos e de perguntas sem resposta. Sou forte quando me penso fraco e, por vezes, sou fraco justamente quando acredito ser forte.
No fim, um laudo é apenas uma tentativa de nomear algo. Eu, porém, sou sempre mais do que aquilo que conseguiram escrever sobre mim.
Jorge Lannes Junior
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