O Homem que a Gaveta Não Guardou
Ontem voltei para casa com um laudo nas mãos. Depois, como quem devolve um nome ao silêncio, guardei o papel na gaveta.
Ali ficaram as palavras que tentam explicar as tempestades.
E eu? Eu permaneci do lado de fora do diagnóstico: sentado no sofá, atravessando a noite, escrevendo o indizível, remendando ausências e aprendendo, mais uma vez, o ofício de existir.
Nenhum laudo se senta à mesa comigo. Nenhum diagnóstico segura minha mão quando a madrugada pesa. Nenhum deles ama, sonha ou escreve em meu lugar.
Há em mim dores que têm nome e outras que jamais terão. Mas nenhuma delas é capaz de conter a imensidão de um ser humano.
Sou mais do que aquilo que me atravessa.
Sou a palavra que insiste depois do silêncio, a luz acesa em meio à própria angústia, a tentativa diária de transformar feridas em sentido.
Os diagnósticos podem desenhar contornos da minha travessia, mas não escrevem o meu destino.
Porque o papel ficou na gaveta.
E eu… eu continuei pertencendo à vida.
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