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O Homem que a Gaveta Não Guardou

Entre diagnósticos e silêncios, há uma vida que continua a se escrever.

Ontem voltei para casa com um laudo nas mãos. Depois, como quem devolve um nome ao silêncio, guardei o papel na gaveta.

Ali ficaram as palavras que tentam explicar as tempestades.

E eu? Eu permaneci do lado de fora do diagnóstico: sentado no sofá, atravessando a noite, escrevendo o indizível, remendando ausências e aprendendo, mais uma vez, o ofício de existir.

Nenhum laudo se senta à mesa comigo. Nenhum diagnóstico segura minha mão quando a madrugada pesa. Nenhum deles ama, sonha ou escreve em meu lugar.

Há em mim dores que têm nome e outras que jamais terão. Mas nenhuma delas é capaz de conter a imensidão de um ser humano.

Sou mais do que aquilo que me atravessa.

Sou a palavra que insiste depois do silêncio, a luz acesa em meio à própria angústia, a tentativa diária de transformar feridas em sentido.

Os diagnósticos podem desenhar contornos da minha travessia, mas não escrevem o meu destino.

Porque o papel ficou na gaveta.

E eu… eu continuei pertencendo à vida.

ESCRITO POR Jorge Lannes Junior 23 textos
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