O que as ruínas não sepultaram em mim
Ainda me lembro das ruínas que tive, dos surtos que eu tive, das coisas que quebrei, que no final acabei me quebrando, das portas que esmaguei e acabei sendo esmagado, de muitas ruínas do passado, mas também das lembranças de belos dias e, muito mais, de cada verso escrito.
Quem sou eu não se nomeia, apenas se sente, na melodia de cada verso escrito. Como o trauma da infância que me transformou em gente. Gente que escreve, gente com coragem, porque é preciso muita coragem para encarar o desafio de quando uma alma se rasga ao peito, sem nem saber de onde veio, da porrada que chega com o vento e de tudo aquilo que acabei esmagando também.
Talvez seja isso.
Eu escrevo para lembrar as ruínas, mas também para impedir que as coisas boas do meu ser desapareçam no esquecimento. Escrevo para não perder a linguagem que me sustenta, nem o eu que nasceu depois dos escombros. Porque, às vezes, a única forma de continuar existindo é transformar aquilo que nos destruiu em palavra, e fazer da memória não um cárcere, mas um lugar onde a vida ainda encontra coragem para florescer.
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