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Há uma noite em mim que a claridade nunca conseguiu atravessar, e foi justamente nela que a minha linguagem aprendeu a permanecer

Nem toda escuridão pertence à noite. Algumas fazem morada na linguagem e deixam restos onde o mundo procura respostas. Talvez escrever seja apenas recolher aquilo que jamais deixou de existir.

A Linguagem do Desencontro

Há noites que não escurecem o mundo. Escurecem apenas aquilo que em mim nunca conheceu a claridade. É por isso que volto a elas. Não para descansar, mas para permanecer diante do que não exige explicação. O sereno atravessa o ar sem me alcançar, os pássaros desenham rotas que desconheço, as estrelas sustentam distâncias impossíveis e a lua ilumina aquilo que insiste em não receber um nome. Existe uma delicadeza no escuro que o dia jamais conseguiu aprender.

A manhã também me visita. Não a recebo como promessa, mas como possibilidade. Caminho entre os joaneios, escrevo onde a linguagem me encontra, seja numa folha esquecida, numa tela acesa ou no pensamento que se recusa a silenciar. Nunca escrevi para concluir uma ideia. Escrevo porque toda palavra deixa escapar outra, porque toda frase revela a insuficiência da anterior. A escrita nunca resolveu a falta. Apenas lhe deu uma morada.

Há uma diferença silenciosa entre aquilo que a luz revela e aquilo que a noite devolve. A claridade organiza as formas. A escuridão recolhe os vestígios. São eles que me interessam. Não os acontecimentos, mas o que permaneceu depois deles. Não as presenças, mas as ausências que continuaram respirando quando todos acreditavam que tudo havia terminado. Minha linguagem nasceu desse lugar onde quase ninguém permanece, entre o que foi perdido e aquilo que nunca chegou a existir completamente.

Caminho sem destino porque algumas travessias não aceitam mapas. Percorro ruas, portas, cidades e silêncios à procura dos fragmentos que fui deixando enquanto me tornava quem sou. Talvez nunca tenha perdido nada. Talvez os restos apenas tenham escolhido outro tempo para me encontrar. Escrevo porque há pedaços de mim que ainda insistem em voltar, não como lembranças, mas como insistências que recusam desaparecer.

Os domingos carregam um idioma próprio. Enquanto o restante da semana fala em compromissos, eles falam em ausência. O tempo desacelera e o sujeito deixa de fugir de si mesmo. Muitos chamam isso de tristeza. Eu chamo de encontro. Há vazios que não pedem preenchimento. Pedem permanência. Nem toda falta deseja um fim. Algumas apenas querem ser reconhecidas.

Nunca fui proprietário das histórias que escrevo. Elas me atravessam antes de se tornarem palavras. Sou menos autor do que passagem. A escrita apenas recolhe aquilo que a existência deixa cair durante o percurso. Escrever sempre foi uma forma de escutar o que o silêncio já dizia muito antes de qualquer frase nascer.

Carrego marcas que ultrapassam a pele. Algumas cicatrizes aprenderam a respirar junto comigo. Há dores que envelhecem sem desaparecer, porque esquecer seria traí-las. Durante muito tempo pensei que sobreviver significava fechar feridas. Hoje compreendo que algumas permanecem abertas para que a vida continue encontrando por onde falar.

Descobri que sou constituído menos pelas minhas conquistas do que pelos restos de cada travessia. Habito fragmentos, equívocos, despedidas incompletas e palavras que nunca encontraram um destinatário. Talvez o sujeito seja exatamente isso: aquilo que sobra depois que todas as certezas desmoronam.

Continuo escrevendo porque existe uma linguagem que só nasce quando o sentido falha. Uma linguagem que não procura respostas, nem oferece consolo. Ela apenas permanece, recolhendo os restos do que fomos, do que perdemos e, sobretudo, do que jamais conseguiremos deixar de ser.

ESCRITO POR Jorge Lannes Junior 29 textos
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