Tema Acessibilidade

A Escrita Como Ferida: Entre o Sangue da Alma e o Silêncio do Inominável

Escrevo onde a dor encontra a palavra, onde o silêncio se rompe e aquilo que não tem nome busca existir. Cada linha é uma tentativa de atravessar o invisível, deixando no papel os vestígios de uma alma em constante revolução.

Não escrevo por virtude. Tampouco por disciplina. Escrevo porque existe algo acima da minha vontade que não me permite abandonar a palavra. Há dias em que penso em silenciar, mas a escrita sempre regressa, como se me escolhesse antes mesmo de eu escolher qualquer frase.

Há um sangue que insiste em morar na garganta. Ele não pede voz. Pede linguagem. E é por isso que cada verso nasce como quem tenta sobreviver a si mesmo.

Escrever é um movimento estranho. A linha sobe. A linha desce. A página termina. Outra começa. A vida também. Nem toda ascensão é vitória. Nem toda queda é derrota. Às vezes, é no alto que se encontra a ruína. E é no fundo que alguma paz finalmente respira.

Não compreendo quase nada do que sou. Habito justamente aquilo que não consigo explicar. Talvez por isso continue escrevendo. Não para responder, mas para permanecer diante da pergunta.

Oscilo entre a melancolia e a euforia. Entre o desejo de desaparecer e a necessidade de deixar uma palavra acesa. Nunca sei quando um texto começa. Muito menos quando termina. Há apenas uma força silenciosa que me empurra para a página.

Gosto da palavra "coisa". Porque coisa é coisa, coisa é coisa. Nem tudo precisa receber um nome. Existem sentimentos que adoecem justamente quando são explicados.

Às vezes caminho sem destino, compro livros, observo ruas, atravesso feiras, sigo o mar apenas para descobrir se ainda existe alguma parte de mim capaz de renascer sem precisar morrer.

Li certa vez uma frase que permaneceu comigo: "A morte é um dia que vale a pena viver." Ela não me pertence. E faço questão de dizer isso, porque aprendi que a honestidade também se escreve.

O que sobra de mim são fragmentos da linguagem, da memória e da interminável conversa entre eu e eu e eu e eu… e talvez nem seja eu.

Quanto mais procuro, menos encontro. E quanto menos encontro, mais continuo procurando.

Talvez escrever seja apenas isso: uma tentativa de tocar a alma de alguém enquanto ainda procuro compreender a minha.

ESCRITO POR Jorge Lannes Junior 1 K leituras
40 textos
Um livro
Attachment Image
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir e executar a obra, desde que atribua o devido crédito ao autor original. É proibido utilizá-la para fins comerciais ou criar obras derivadas.
±100 leituras
Classificação de conteúdo:
Seguro

Publicado
Denunciar conteúdo
Este conteúdo foi publicado por um autor da plataforma e é de sua responsabilidade. Ele deve respeitar a Política de Conteúdo do Portal Escritores. Caso identifique alguma violação, utilize o Fale Conosco.

Comentários


Mais textos deste autor