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A Linguagem Que Não Me Obedece

Há dias em que até a linguagem precisa permanecer do lado de fora. Não para ser esquecida, mas para que o vazio continue intacto, sem que ninguém tente preenchê-lo.

Se eu sou filho da loucura, fui criado em meio a algum feitiço.

Talvez por isso a minha linguagem não me obedeça. Talvez seja ela quem me governe, quem me conduza pela mão até lugares onde eu não queria ir, até palavras que eu não sabia que existiam, até uma angústia que, de tão íntima, toma café da manhã comigo como se tivesse nascido dentro da casa.

Mas eu não quero escrever.

E, quando eu não quero escrever, não escrevo nada.

Não me contradigam.

Não me expliquem.

Não preencham os meus vazios.

Deixem-nos lá, exatamente onde estão, porque a falta está sempre presente para não ser preenchida, e o vazio, talvez por saber disso, não se deixa preencher por ela.

O vazio não quer ser salvo.

O vazio não pediu socorro.

E o bolo que ainda não comi, uma hora chega, como um banquete que atravessa o dia sem pedir licença.

Talvez sejam dez bolos.

Talvez vinte.

Eu os comerei como como as palavras, uma depois da outra, sem saber exatamente onde termina a fome e começa o desejo.

Não suporto mais os dias.

Não suporto mais a noite.

Há um ano inteiro em que tudo aquilo que deveria dar certo parece ter escolhido o caminho contrário.

Mas o que seria, exatamente, dar certo?

E o que seria dar errado?

Não sou de dar explicações.

Não tenho essa obrigação.

Mas está dando tudo errado, sim.

E dizer isso não me torna hipócrita, porque não sou mentiroso.

Embora ninguém saiba, no fim das contas, se aquilo que escrevo é verdadeiro ou falso.

Talvez nem eu saiba.

O mundo não é falso.

O planeta não é falso.

A matéria permanece ali, indiferente à nossa necessidade de inventar significados.

As pessoas é que são.

E, ainda assim, ninguém consegue distinguir completamente uma coisa da outra.

Ninguém sabe onde termina a verdade e começa a fabricação de uma vida.

Então eu saio quietinho.

Não porque tenha alguma resposta, mas porque, por enquanto, é o único gesto que ainda me pertence.

E espero que me respeitem.

Eu não quero escrever agora.

E talvez não queira escrever hoje.

Talvez amanhã eu escreva tudo.

Talvez eu não escreva nada.

Mas, se eu disser que não quero, não me contradigam.

Há momentos em que até o silêncio precisa ser deixado em paz.

ESCRITO POR Jorge Lannes Junior 2 K leituras
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