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QUANDO EU PISQUEI

Entrou a semana e a ansiedade veio junto. Vai demorar, vai demorar. E a semana, quando começa, parece que já chega trazendo consigo essa promessa de demora, como se a sexta-feira estivesse longe demais para ser alcançada. Quando eu pisquei, já era sexta-feira. Quer dizer, quando eu pisquei… já entrou.

E a semana passou sem que eu percebesse.

Uma sexta sem vento, um sol que parece que vai-se embora e uma chuva que parece que vai cair. Dizem, né? Dizem. Nunca se sabe se irá cair mesmo. Também nunca se sabe se o sol vai embora. Nunca se sabe até se ele foi embora mesmo só porque anoiteceu.

Talvez nem tudo que desaparece tenha ido embora.

E fico pensando nessas coisas enquanto a sexta chega, ou talvez enquanto eu chego nela. Sono, que acabei de acordar e fui direto escrever. Nem sei direito o que estou procurando quando escrevo. Talvez palavras. Talvez alguma coisa que esteja antes delas.

Palavras que não acho ou talvez não caibam dentro de mim.

É tão grande que eu não consigo colocar pra fora. Procuro uma palavra e encontro outra. Começo uma frase e ela já não diz exatamente o que eu queria dizer. Como se aquilo que sinto fosse maior do que a possibilidade de ser dito.

Há palavras que existem, mas não me alcançam.

A sensação de que a minha linguagem já não obedece mais ao que sei que é dito. Obedece apenas à palavra que escrevo, aos sons dos meus gritos. Como se escrever fosse menos uma escolha e mais uma tentativa de fazer alguma coisa sair de dentro de mim.

E talvez eu escreva justamente porque não consigo dizer.

Porque aquilo que não encontro em palavra continua aqui, ocupando espaço, fazendo barulho, esperando uma forma qualquer de existir fora de mim.

E eu continuo escrevendo, mesmo sem saber se é a palavra que me obedece ou se sou eu que, finalmente, estou aprendendo a obedecer ao que ela diz.

ESCRITO POR Jorge Lannes Júnior 12 K leituras
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