Tema

A insustentável permanência da escrita

Já andei tudo o que havia para andar, corri tudo o que havia para correr, nadei tudo o que havia para nadar. Penetrei cachoeiras, deixei que suas águas me banhassem, adentrei o mar salobre. Percorri veredas, amei o que me coube amar, odiei o que jamais desejara odiar e também aquilo que, deliberadamente, escolhi detestar. A linguagem me escapa, e talvez resida nessa fuga a sua mais íntima natureza. Já conheci iras daquelas que incendeiam as entranhas, sonhos que feneceram ao despertar e outros que, arrancados do domínio onírico, logrei transmutar em realidade.

Ao longo da existência, atravessei caminhos extensos, alguns tão árduos que sequer saberia nomear as pedras que me feriram os pés. Contudo, nada me foi tão custoso quanto alcançar a limpidez da humildade e a singeleza da simplicidade. Que ninguém se iluda: tornar-se simples exige um labor descomunal, uma espécie de despojamento do próprio eu, no qual algo precisa perecer para que outra coisa, talvez mais verdadeira, possa nascer. Há dor nesse desnudamento, mas também uma alegria que não se deixa explicar sem perder parte de sua essência.

Corri contra os ventos, contra as escrituras, contra aquilo que se inscrevia em mim sem o meu consentimento. Ainda assim, escrevo. Acendo um cigarro e leio o que acabo de escrever, como se procurasse, entre as palavras, algum vestígio de mim que ainda não tivesse sido devorado pela linguagem. Depois, abandono a leitura de meus próprios escritos e me volto aos livros alheios. Penso que aquele que escreve precisa ler; mas aquele que lê não necessariamente o faz para escrever. Há quem leia para se encontrar, quem leia para se perder, quem procure nos livros aquilo que a realidade lhe sonegou. Cada qual guarda seu motivo, sua falta, seu enigma. Eu leio.

Ainda me restam sonhos por conquistar, e seria uma presunção afirmar que vivi tudo quanto me estava destinado viver. Há regiões inexploradas em mim, recônditos que talvez jamais se deixem alcançar, possibilidades adormecidas na linguagem do meu ser, naquilo que chamo alma, naquilo que outros chamariam espírito. Talvez eu ainda não tenha chegado ao lugar de onde verdadeiramente parto. Talvez a existência não seja senão esse movimento de buscar, no outro lado de nós mesmos, aquilo que julgávamos perdido.

Acendo outro cigarro. Meu corpo ensaia um gesto, quase um ritual de despedida, enquanto suplico a mim mesmo: não quero mais escrever.

Amanhã, talvez, eu volte a desobedecer a mim mesmo.

Pode ser agora ou nunca.

ESCRITO POR Jorge Lannes Júnior 11 K leituras
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