Entre quem fui e quem sou
Precisei deixar de ser quem eu era para ser quem eu sou. E, nessa travessia, já não sei quem eu era, tampouco quem sou. Talvez tenha me perdido entre duas versões de mim, entre o nome que deixei para trás e aquele que ainda tento reconhecer no espelho. Há metamorfoses que não devolvem o sujeito ao mundo: devolvem o mundo a um estranho que habita o próprio corpo.
4 de outubro. Votação eleitoral. Desvaneei-me de um sono sem nome. Levantei às 10h28 da manhã, como quem retorna de um lugar onde nem o inconsciente deixa rastros. Peguei uma caneca, coloquei café para despertar o corpo e, sobretudo, reunir alguma disposição para ir ao colégio votar e voltar para casa, sem precisar sair novamente. Acendi um cigarro, tomei mais café, acendi outro. E fui.
As ruas estavam lotadas, papéis espalhados por toda parte. Diante da humanidade, já não me surpreendo. Os bichos são mais humanos, mais limpos. Gatos e cachorros parecem conservar algo que o homem perdeu pelo caminho. Ou talvez seja injusto: até o porco não seja porco. Talvez a verdadeira sujeira não esteja no animal, mas naquilo que o homem faz de si mesmo quando se esquece de sua própria humanidade.
No caminho, encontrei uma colega. Ela me abraçou e disse que estou barbudo, com as unhas grandes. Um gesto gentil, uma observação aparentemente banal, mas que trazia consigo uma mensagem silenciosa: você não está se cuidando. O corpo denuncia aquilo que a boca tenta esconder. Há abandonos que não precisam ser anunciados; aparecem nas unhas, na barba, no espelho que deixamos de consultar. Às vezes, o outro nos enxerga justamente quando já não conseguimos nos reconhecer.
Votei e voltei.
Quando se está deprimido, a beleza perde o sentido. O espelho deixa de convocar, a aparência deixa de importar, e o corpo parece pertencer a alguém que já não reconhecemos. O amor, sim, esse ainda me importa. Talvez seja a última coisa que permanece quando o desejo se retrai e o mundo perde a cor. Não preciso que tudo seja belo. Preciso apenas que alguma coisa ainda tenha sentido.
Meu irmão veio buscar mamãe para votar e disse: "Pede seu remédio, vou pagar". E logo saíram. Fiquei. Passei o domingo inteiro só, eu e minha solidão, essa presença que não bate à porta porque nunca foi embora.
A melhor parte do dia foi ter suportado a fila no colégio. Parece pouco, quase nada, mas há dias em que atravessar uma fila é atravessar a própria existência. Eu queria dizer: não estou bem. Alguém me ajuda a sair daqui? Não sabia exatamente de onde precisava sair. Talvez daquele lugar, talvez de mim, talvez dessa prisão sem grades em que o sujeito é, ao mesmo tempo, o prisioneiro e aquele que procura a saída.
Recebi ajuda. Foi a minha mesma.
E há nisso uma contradição que não consigo resolver: sou aquele que pede socorro e aquele que precisa responder ao pedido. Sou quem sofre e quem escreve o sofrimento. Mas escrever não significa necessariamente compreender, muito menos se salvar. Às vezes, a palavra apenas abre uma fresta para que o sujeito respire antes de voltar a se perder em si mesmo.
Estou escrevendo numa agenda apertada. A outra, queimei. Talvez quisesse destruir o que havia escrito, como se o fogo pudesse consumir também aquilo que me atravessou. Mas a palavra não desaparece só porque o papel vira cinza. O que escrevemos pode ser destruído; aquilo que nos escreve continua ali, insistindo, fazendo de nós seus destinatários.
Quando terminar, vou picotar com a tesoura tudo o que minha linguagem da alma me trouxe. Linha por linha, palavra por palavra. Como se fosse possível devolver ao silêncio aquilo que dele nasceu. Como se destruir o registro fosse o mesmo que desfazer a experiência. Não sou dono das palavras, tampouco das linhas. Talvez nem seja inteiramente dono de mim quando escrevo.
Hoje chegou meu cordão. Quando abri a embalagem, nem olhei direito. Guardei. Há coisas que chegam quando já não sabemos recebê-las. Objetos que carregam sentidos que ainda não conseguimos decifrar, símbolos que permanecem fechados à espera de um sujeito capaz de reconhecê-los. Hoje, não fui capaz. Apenas guardei.
Domingo: eu, o cordão e a luz da minha solidão.
E, nessa luz, volto à pergunta que atravessa tudo o que escrevo: quem sou eu depois de ter deixado de ser quem era? Talvez a identidade seja essa ficção necessária que inventamos para não nos perdermos por completo. Talvez a mudança seja uma tentativa de escapar ao nome antigo, sem perceber que não existe metamorfose capaz de apagar inteiramente as marcas de quem fomos.
Precisei deixar de ser quem eu era para ser quem sou. Mas, no caminho, perdi as coordenadas. Já não sei se estou chegando ou partindo, se me reconheço ou apenas me acostumo com o desconhecido que vejo no espelho. Há um intervalo entre o que morreu e o que ainda não nasceu. E é nesse intervalo que escrevo, sem garantias de encontrar uma resposta.
Vou comprar outro caderno. Talvez seja essa a única certeza que me resta: mesmo quando queimo as páginas, mesmo quando as pico em pedaços, alguma coisa em mim insiste em escrever. Não sei se escrevo para me encontrar ou para tornar suportável o fato de não saber quem sou. Sei apenas que as palavras voltam, e eu volto com elas.
Tenho aversão às explicações, repulsa à necessidade de justificar minha existência, horror a ter de traduzir em palavras aquilo que nem eu mesmo consigo compreender. Detesto ser convocado a explicar quem sou, como se o sujeito precisasse apresentar documentos para existir. Abomino as justificativas, fujo das definições, tenho pavor de reduzir minha complexidade a uma resposta que satisfaça a curiosidade alheia.
Não me peçam que explique a travessia. Nem eu sei onde termina o caminho.
Odeio explicações.
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