A Liturgia do Indizível
Há dias em que acordo acreditando que ainda caminho em direção a mim. Em outros, compreendo que não existe caminho algum. Existe apenas o intervalo entre um pensamento e outro, onde a escrita resolve acontecer.
Não escrevo porque sei.
Escrevo porque desconheço.
O cigarro, quase sempre, anuncia esse instante. A fumaça sobe como se soubesse o percurso que eu jamais consegui aprender. Enquanto ela desaparece, alguma palavra decide permanecer.
Há um ritual nisso tudo.
O papel nunca me pergunta quem sou. A caneta nunca exige explicações. Ambos apenas aceitam aquilo que consigo suportar dizer.
Quando a tinta acaba, resta o lápis.
Quando o lápis falha, ainda existe alguma margem onde a mão insiste.
Talvez escrever seja isso.
Insistir.
Visto cores diferentes conforme o dia, mas nenhuma delas consegue vestir completamente aquilo que me habita. O branco tenta me pacificar. O cinza aceita minhas dúvidas. O preto conhece meus silêncios. O azul, curiosamente, sempre me devolve uma esperança que nunca faz barulho.
Tenho vivido mais recolhido.
Não por medo do mundo.
Talvez por excesso dele.
Existe uma solidão que machuca e existe outra que organiza. Ainda não sei em qual delas habito, mas aprendi a não fugir quando ela bate à porta.
Tenho saudade de mim.
Não daquele que fui.
Também não daquele que imagino ser.
Tenho saudade de alguma parte que ainda não encontrei.
E isso deixou de me assustar.
Hoje prefiro a curiosidade à certeza.
As certezas costumam envelhecer depressa. As perguntas permanecem respirando dentro da gente.
Sou feito de muitas versões que dificilmente conversam entre si. Algumas se abraçam. Outras se contradizem. Há dias em que uma salva a outra. Há dias em que todas desaparecem ao mesmo tempo.
Talvez seja isso que chamam de existir.
Escrevo sem procurar beleza.
Sem procurar respostas.
Sem procurar leitores.
Escrevo porque algumas dores só aceitam existir depois que recebem um nome.
E, curiosamente, depois de escritas, já não me pertencem da mesma forma.
Cada palavra leva um pouco de mim.
Cada texto devolve alguém que ainda não conheço.
Enquanto isso acontece, continuo vivendo.
Transformando-me.
Desfazendo-me.
Refazendo-me.
Sobrevivendo.
Talvez a escrita nunca tenha sido minha salvação.
Talvez ela seja apenas a ponte que me impede de desaparecer completamente antes de chegar ao outro lado.
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