A linguagem escreve primeiro
A falta escreve primeiro. Eu apenas chego depois. Não sei se domingo é um dia ou um modo de desaparecer. Há alguma coisa nele que me olha antes mesmo que eu consiga abrir os olhos. Passo horas tentando dar um nome ao que me atravessa, mas a linguagem sempre chega antes de mim e leva consigo aquilo que eu julgava encontrar. Há sete anos eu era alguém que hoje me leria como um estranho. Agora caminho entre os restos de um sujeito que nunca termina de nascer. Entre um desvario e outro, continuo procurando aquilo que jamais deveria ser encontrado. Talvez, se um dia eu encontrasse, a escrita morresse antes de mim. E esse seria o verdadeiro castigo: permanecer dentro de um túmulo escrevendo uma palavra que já não teria para quem faltar. Não sou eu quem faz a linguagem. É ela quem me fabrica, me rompe, me embaralha e me devolve incompleto. As folhas caem como caem alguns dos meus dias. Há manhãs em que sou apenas um amontoado de fragmentos tentando sustentar um nome. Em outras, descubro que até a lucidez pode delirar. A vida nunca me perguntou se eu queria existir. Apenas me lançou ao mundo e deixou que a linguagem decidisse o resto. Desde então escrevo. Não para compreender. Não para curar. Escrevo porque há algo em mim que insiste em permanecer sem nome, e talvez seja justamente esse impossível que ainda me mantenha escrevendo.
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