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A Morte Tem Cura, Viver Não

E no meio disso tudo, descubro uma coisa que talvez eu já soubesse, mas nunca tivesse coragem de dizer: viver não tem cura. A gente melhora de algumas coisas, aprende a conviver com outras, encontra distrações, pessoas, lugares, palavras. Mas o sofrimento sempre encontra uma fresta para voltar. Viver requer paliativos. Às vezes é o amor. Às vezes é o desamor. Às vezes é uma conversa que não aconteceu, uma música tocando baixo no quarto, uma lembrança que dói, mas que ainda assim a gente prefere ter a não ter nada. Às vezes é simplesmente acordar e encontrar alguma razão, mesmo pequena, para continuar atravessando o dia.

Talvez o paliativo esteja onde quase nunca procuramos. Nas paredes do quarto. Nos quadros esquecidos pela casa. Na janela. No café que esfria sobre a mesa. Na mensagem que alguém mandou sem saber que chegou justamente quando a gente precisava. Ou dentro de nós, escondido em algum lugar que nem sabemos nomear. Porque talvez seja isso que fazemos o tempo inteiro: procuramos alguma coisa que nos ajude a suportar aquilo que não conseguimos mudar.

E eu penso que talvez a morte tenha cura, mas viver não. Porque viver é essa coisa estranha que continua acontecendo mesmo quando alguma parte de nós já não sabe mais como acompanhar. A vida continua. O corpo levanta. A boca responde. Os dias passam. E, por dentro, alguma coisa permanece parada, olhando tudo acontecer. Talvez seja sempre a mesma falta voltando com outro nome. A mesma dor aprendendo novas palavras. A mesma pergunta aparecendo em diferentes dias, como se esperasse de nós uma resposta que nunca chega.

Talvez seja por isso que eu escrevo. Por isso o quê? Não sei. Talvez eu escreva porque algumas coisas, quando ficam dentro da gente, começam a fazer barulho. E escrever é a única maneira que encontrei de colocá-las para fora sem precisar saber exatamente o que elas são. Talvez alguém leia e reconheça alguma coisa de si. Talvez ninguém reconheça. Mas, se em algum lugar, em algum leitor, uma frase minha atravessar uma dor que ele nunca conseguiu dizer, então talvez escrever já tenha servido para alguma coisa. Mesmo que seja só um paliativo.

ESCRITO POR Jorge Lannes Junior 3 K leituras
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