Onde a lucidez não alcança
Ás vezes me abrigo naquilo que chamam de loucura porque a lucidez começa a doer demais. Talvez enlouquecer seja apenas uma maneira estranha de continuar quando a consciência pesa mais do que o próprio corpo. Há excessos que escondem faltas, e talvez seja justamente isso que me atravessa: uma falta sem nome, dessas que a linguagem contorna, mas nunca consegue alcançar por inteiro. Porque sempre resta alguma coisa. Um resto. Um pedaço que escapa quando tento transformar em palavra aquilo que me acontece.
Talvez eu seja filho desse lugar onde a razão não consegue chegar. Um lugar obscuro, sem mapas, onde nem tudo precisa ser compreendido para existir. Caminho por ele como quem percorre uma rua escura e, de repente, encontra uma pequena felicidade acesa no meio do caminho. Uma epifania breve. Quase nada. Mas às vezes quase nada é o suficiente para nos devolver ao corpo.
Tenho preferido olhar o mundo com os meus próprios olhos. Talvez porque enxergar demais pelos olhos dos outros seja uma forma silenciosa de desaparecer de si. E eu já desapareci algumas vezes. Ainda existe em mim alguma coisa que parece morta, embora continue respirando. Talvez seja por isso que durmo tanto. O sono, por algum tempo, suspende as perguntas. Nele ninguém me pergunta o que desejo, o que me falta ou quem sou. Apenas durmo. E, quando acordo, tento novamente.
Há dias em que tudo se confunde. O quarto, o café, o cigarro, a janela, a televisão desligada, o computador esperando alguma coisa de mim. O mundo continua acontecendo do lado de fora, enquanto eu permaneço aqui, tentando entender o que acontece dentro. Os dias deixam de ter nome. Sexta, sábado, madrugada, manhã. Tudo parece uma mesma coisa. E talvez seja justamente por isso que gosto tanto da palavra coisa. Ela acolhe aquilo que ainda não encontrou nome. A coisa existe antes da linguagem e permanece depois dela.
O café esquenta minhas mãos enquanto alguma parte de mim permanece fria. Bebo devagar e penso que talvez viver seja isso: encontrar pequenos intervalos entre uma queda e outra. Não para resolver tudo, mas para continuar. A escrita também é um desses intervalos. Quando não consigo chorar, escrevo. Quando não consigo explicar, escrevo. Quando a palavra falta, escrevo justamente sobre a falta.
Talvez escrever seja a única maneira que encontrei de não desaparecer completamente. Não porque a escrita me explique, mas porque ela aceita aquilo que não pode ser explicado. Ela não fecha o buraco. Apenas senta ao lado dele.
E talvez seja isso que ainda me mantém aqui: o café fumegando, a fumaça subindo, a janela aberta para um mundo que não posso desligar, e essa estranha insistência de continuar sendo alguma coisa mesmo quando já não sei exatamente o que sou.
No fim, talvez eu não precise descobrir onde termina a lucidez e começa a loucura. Talvez algumas coisas não tenham fronteira. Talvez eu precise apenas permanecer entre elas, nesse lugar em que ainda posso escrever, respirar e, por mais um dia, permanecer.
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