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Tudo Escapa, Inclusive Eu

Nem o desejo permanece. Nem a palavra consegue deter aquilo que atravessa o corpo. Escrevo na tentativa de habitar o que escapa, sabendo que talvez seja justamente esse impossível que continue me escrevendo.

Meu desejo o ontem no mesmo lugar do hoje, embora o ontem ainda insista em permanecer. Do amanhã já não sei. Nada me agrada. Nem eu me agrado. O que seria agradar a si mesmo? Não sei. Uma felicidade medida em cinco segundos? O ponteiro do relógio aguardando a hora da bela saída para um show marcado há anos? A euforia de uma noite entre amigos? De que matéria se faz a felicidade? E o que se faz dela depois que passa? Como se escreve quando não se quer escrever? Empurra-se a escrita ou é a escrita que nos empurra para sermos escritos? Minha linguagem é a morada de uma alma que sangra, que se fecha, que se abre por todos os buracos do corpo. Costurei cada rasgo com linha e agulha, mas cansei. Agora deixo tudo aberto. Continuo escrevendo de amanhã, porque daqui a um minuto já será tarde. Posso olhar as horas, mas quando escrevo não vejo o relógio, apenas escrevo. E por que escrevo? Talvez porque exista em mim um enigma que jamais se deixe decifrar. Há uma morada dentro de mim que insiste em escrever, talvez para viver, talvez para sobreviver. O que escrevo pode ser profundo ou apenas superfície. Nunca se sabe o que vai sair daqui.

Mas tudo escapa.

Quando escrevo, escapa.

Quando não escrevo, também escapa.

Hoje é dia da minha sessão com a analista.

Não estou a fim de fazer análise.

Hoje não quero.

Não quero sair do quarto.

Também não quero que alguém entre nele.

Não quero falar com ninguém.

Não quero que ninguém fale comigo.

Não quero telefonar para ninguém, nem que alguém me telefone.

Quero apenas o indispensável.

Tomar banho.

Comer e beber.

Para não agredir tanto o corpo.

Apesar disso, não comi nada.

Alimentei-me de palavras escritas.

De tudo aquilo que me atravessa.

Uma travessia de mim por mim mesmo, fazendo do próprio corpo uma morada.

Entre um eu e outro eu, contradigo-me naquilo que me falta e naquilo que desejo.

Talvez seja justamente dessa contradição que a escrita continue a nascer.

ESCRITO POR Jorge Lannes Junior 2 K leituras
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