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Quando escrever já não é uma escolha

Entre o desejo de escrever e a impossibilidade de fazê-lo, alguma coisa começa a falar.

Quando eu quero escrever, a minha linguagem não permite. Ela se recolhe, fecha as portas, apaga as luzes e permanece em algum lugar onde não consigo alcançá-la. Quando eu não quero escrever, entretanto, ela me empurra para a escrita. Insiste. Persiste. Bate contra alguma coisa dentro de mim até que eu ceda.

E eu, querendo escrever, não encontro as palavras certas, como se existissem palavras certas para escrever. Como se a linguagem fosse uma espécie de território sagrado onde algumas palavras estivessem destinadas a determinadas coisas e eu precisasse encontrá-las, exatamente aquelas, para finalmente dizer o que ainda não sei dizer.

Não consigo escrever.

E é justamente quando digo isso que alguma coisa começa a ressoar.

Talvez porque, quando eu quero escrever, eu possa encontrar alguma coisa que me mate. Alguma coisa entre o meu eu e aquilo que ainda permanece escondido em algum lugar do meu inconsciente. Não sei. Talvez existam coisas que não querem ser encontradas. Há palavras que, quando pronunciadas, não revelam. Ferem.

E talvez seja por isso que a linguagem se recuse quando eu a convoco. Talvez ela saiba que, se vier, trará consigo alguma coisa que eu ainda não estou preparado para reconhecer.

A única coisa que sei é que agora, sim, eu quis escrever. Mas fui empurrado para dentro da escrita no meio do próprio percurso, como se tivesse começado a caminhar em direção a uma porta e, quando percebi, já estivesse do outro lado.

Eu queria começar a escrever e agora já não quero escrever mais.

Mas alguma coisa já começou.

E quando alguma coisa começa dentro da linguagem, talvez não seja mais possível simplesmente voltar.

Entrei num abismo.

Não sei se caí ou se fui levado. Não sei se havia alguma coisa me esperando lá embaixo ou se fui eu quem levou tudo comigo.

Afoguei-me nas minhas próprias lágrimas, sangrei do meu próprio sangue e bebi do meu próprio veneno.

E talvez seja essa a parte mais terrível da escrita: descobrir que o abismo não estava diante de mim.

O abismo era a própria linguagem.

E eu, ao tentar escrever, apenas descobri que já estava dentro dele.

ESCRITO POR Jorge Lannes Junior 2 K leituras
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