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O Afeto da Falta

Entre afetos esperados e ausências sentidas, escrevo para me perder de tudo aquilo que julgava conhecer.

E no meio de todo o caso, já fui afetado por esperar afetos. Tanto daqueles que têm o sangue que corre nas minhas veias quanto daqueles que não têm. Talvez eu tenha esperado demais de pessoas das quais, por alguma razão, eu acreditava que pudesse receber alguma coisa, um gesto, uma palavra, uma presença, uma atenção que não precisasse ser solicitada. Mas esperar também é uma maneira silenciosa de entregar ao outro o poder de nos afetar. Hoje não espero nada. Espero ter o afeto que tenho por mim. De certa forma, é preciso se amar. Mas será que quem se ama de verdade ama o outro? Talvez não. Talvez aquele que não consegue te dar um afeto, uma atenção, uma presença, não necessariamente não se ame, mas carregue seus próprios traumas, alguns que nem sabe que possui, outros que sequer consegue reconhecer, feridas que nunca foram cuidadas porque talvez nunca tenham sido percebidas. E talvez seja por isso que faz por si, escreve por si, vive por si, e não pelo outro, não por necessidade, não necessariamente por crueldade, mas porque ninguém consegue oferecer aquilo que ainda não conseguiu encontrar dentro de si. Talvez esperemos do outro uma linguagem que ele nunca aprendeu a falar. Esperamos cuidado de quem desconhece o próprio abandono, delicadeza de quem foi atravessado pela dureza, presença de quem aprendeu a desaparecer. E talvez seja essa uma das coisas mais difíceis de aceitar: nem toda ausência é uma escolha contra nós. Algumas faltas pertencem àquele que as produz. Meu peito agora está angustiante. É uma angústia que ganhou nome, porque eu dou um nome para ela. Talvez nomear a dor seja uma tentativa de dar algum contorno ao que não se deixa compreender. Enquanto acendo o cigarro, a fumaça vai subindo, lentamente, desaparecendo no ar, como se soubesse para onde ir, enquanto eu continuo sem saber. O cigarro acaba e então pego outro. E assim é a vida. O que acontece depois que acendo o cigarro? Ele termina. E outro começa. A tristeza acaba e depois vem outra. A felicidade é a mesma coisa. A angústia também. Tudo parece terminar apenas para reaparecer de outra maneira, com outra forma, outro nome, outro rosto. Talvez nada desapareça completamente. Talvez apenas mude de lugar dentro de nós. E eu descobri que sou movido à angústia. Pelo menos é o que eu acho. Eu não posso dar certeza. Talvez amanhã eu pense diferente, talvez a própria escrita venha me contradizer, porque escrever também é desconfiar daquilo que acreditamos saber. Eu não ligo para o que o outro pensa. Nunca liguei, na verdade, para o que pensam de mim ou para o que deixam de pensar. Podem supor. Podem interpretar. Podem criar versões de mim a partir daquilo que veem, daquilo que imaginam ou até daquilo que não compreendem. Mas ninguém vai me conhecer. Não por inteiro. Até porque ninguém se conhece por inteiro. Há sempre alguma coisa que escapa ao próprio sujeito, alguma parte que permanece desconhecida até para aquele que a carrega. Talvez sejamos feitos também daquilo que não conseguimos nomear, daquilo que não conseguimos explicar, daquilo que aparece somente quando alguma ausência nos atravessa, quando algum desejo insiste, quando alguma perda nos desmonta ou quando a angústia deixa de ser apenas uma sensação e passa a ser uma maneira de existir. Escrevo não para me conhecer por inteiro e nem pela metade. Escrevo para me desconhecer daquilo que eu conheço. Para deslocar minhas próprias certezas, para desconfiar das respostas que inventei sobre mim e perceber que talvez aquilo que chamo de identidade seja apenas uma construção provisória diante do impossível de ser. Não escrevo para finalmente descobrir quem sou. Escrevo para me perder um pouco mais de mim e, nessa perda, talvez encontrar alguma coisa que ainda não sabia que procurava. A palavra não me revela necessariamente; às vezes, ela me encobre, me desloca, me desorganiza. E talvez seja justamente aí que ela exista de verdade. Porque escrever é deixar de ser aquilo que eu acreditava ser enquanto tento compreender aquilo que ainda não consigo dizer. Minha linguagem grita para eu só viver os dias. Pronto. Sem transformar cada manhã em promessa, cada ausência em sentença, cada encontro em garantia de permanência. Talvez viver seja aceitar que aquilo que chega também pode partir, que todo afeto carrega alguma falta, que toda felicidade traz consigo a possibilidade de acabar e que até a angústia, por mais insistente que seja, também se modifica. Talvez viver seja parar de exigir que o tempo explique alguma coisa. Talvez seja apenas atravessá-lo. Um dia depois do outro. Um cigarro depois do outro. Uma falta depois da outra. Um afeto depois do outro. Uma angústia depois da outra. E continuar. Continuar escrevendo não para me conhecer, mas para suportar aquilo que em mim permanece desconhecido. Porque talvez eu nunca venha a me conhecer. E talvez seja justamente essa impossibilidade que me faça continuar escrevendo. No fim, talvez eu não escreva para encontrar quem sou, mas para acompanhar aquele que ainda não sei quem é. E talvez viver seja exatamente isso: aceitar que existe em nós alguma coisa que nunca se entrega completamente à própria consciência e, ainda assim, continuar vivendo os dias, como quem acende outro cigarro sabendo que ele também vai acabar.

ESCRITO POR Jorge Lannes Junior 4 K leituras
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