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A Escrita Não Me Cura. Ela Me Mantém Vivo.

Há dores que nenhum diagnóstico explica por inteiro. Entre a análise, a psiquiatria e a linguagem, descobri que escrever não apaga minhas faltas; apenas me permite atravessá-las sem deixar que elas escrevam quem eu sou.

Acordei. Ainda meio tonto. Pego um copo de café. Acendo um cigarro. Talvez eu tenha acordado apenas para isso.

Entre um verso e outro, é aí que existo. Não como uma forma de existência, mas como linguagem para haver-me no mundo. Há dias em que não encontro respostas. Encontro palavras. E, às vezes, elas bastam para impedir que o silêncio diga tudo por mim.

Sou tratado da forma que desejo, mas a primeira travessia sempre será comigo mesmo. A análise me oferece uma escuta. A psiquiatria me oferece um cuidado. Os afetos, quando chegam, oferecem algum descanso. Mas talvez o meu maior tratamento seja o gesto mais simples e, ao mesmo tempo, o mais difícil: permitir-me ser, sem a obrigação de caber em um diagnóstico, em uma expectativa ou em uma definição.

Escrevo porque há dores que não suportam permanecer caladas. Escrevo porque a linguagem, tantas vezes, consegue sustentar aquilo que o corpo já não suporta carregar sozinho. Cada frase é uma tentativa de fazer um laço com aquilo que me falta, sem a pretensão de preencher o vazio.

Não escrevo para parecer forte. Escrevo porque a escrita me impede de desaparecer. Ela recolhe os fragmentos, atravessa a angústia, suporta o impossível e devolve ao sujeito alguma possibilidade de continuar.

Talvez eu nunca cure aquilo que me constitui. E talvez nem deseje. Há marcas que não pedem cura; pedem escuta. Há feridas que não querem ser apagadas, apenas reconhecidas.

Por isso escrevo. Para tratar a alma que, tantas vezes, transborda em sangue dentro de mim. E, enquanto escrevo, descubro que não estou tentando vencer a dor. Estou apenas aprendendo a fazer dela uma linguagem para continuar vivendo.

ESCRITO POR Jorge Lannes Junior 1 K leituras
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