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O Inconsciente Também Sangra em Silêncio

Entre o vazio, a angústia e aquilo que permanece inexplicável, escrever talvez seja a única forma que encontrei de continuar existindo sem precisar compreender tudo.

Há algo na janela que me olha de volta. Não sei se é o mundo, se sou eu ou se existe alguma coisa entre os dois que ainda não consigo nomear. Fixo os olhos no vidro e permaneço ali, diante de uma paisagem que parece esconder alguma resposta, embora eu não saiba exatamente qual pergunta estou fazendo. Talvez exista algo do outro lado. Talvez exista algo deste lado. Talvez eu apenas esteja tentando encontrar, no que vejo, alguma coisa que não consigo encontrar em mim. Estalo o pescoço. Estalo os pés. Estalo os dedos. Estalo o corpo inteiro, como se cada ruído pudesse romper alguma coisa que permanece presa dentro de mim. Escrevo porque, em algum lugar, ainda acredito que a escrita seja o meu atestado de sanidade. Talvez seja a única prova de que ainda consigo organizar alguma coisa, mesmo quando tudo dentro de mim parece se desorganizar. Talvez, se não fosse a escrita, eu não soubesse onde colocar aquilo que não consigo dizer. Não sei explicar por que escrevo. E talvez seja justamente por isso que escrevo. Não gosto de explicar. Se eu soubesse explicar, talvez não explicasse. Há coisas que, quando compreendidas demais, perdem a própria existência. Não sou feito de explicações. Sou feito do inexplicável, da loucura, do inviável, da falta, da angústia. A angústia, essa, já se tornou minha amiga. Ela chega sem pedir licença, senta-se ao meu lado e, às vezes, parece querer acabar comigo. Mas, no fim, deixa alguma coisa. Uma palavra. Uma imagem. Um resto. Talvez seja isso que eu tenha aprendido a fazer com aquilo que me destrói: transformar os destroços em alguma coisa que ainda possa ser escrita. Não tento mais preencher o vazio com qualquer coisa. Talvez porque tenha descoberto que existem preenchimentos que apenas escondem a falta por algum tempo. E, quando aquilo que foi colocado dentro desaparece, o buraco continua lá. Gosto de bichos. Gosto de cachorros. Gosto de gatos. Bicho é melhor que gente. Talvez porque um animal não exija que você saiba explicar o que sente. Ele apenas permanece. E, às vezes, permanecer é tudo o que se pode fazer por alguém. Entre uma fumaça e outra de um cigarro, entre um copo de suco e outro, existem as pausas que me dou para continuar escrevendo. Pequenas interrupções no meio daquilo que não para. Ando desanimado. Muito. Desanimado até para escrever. E isso me assusta, porque escrever sempre foi uma das poucas coisas que ainda consegui fazer quando não conseguia fazer mais nada. Talvez esse desânimo não seja quem eu sou. Talvez seja apenas uma parte de mim atravessando alguma coisa. Ou talvez seja o meu verdadeiro eu, aquele que aparece quando já não preciso fingir disposição para continuar. Ando desanimado para quase tudo. E talvez seja necessário algum equilíbrio. Não permanecer completamente desanimado, mas também não se entregar completamente à animação. Existe um lugar entre uma coisa e outra. Um lugar que parece equilíbrio, mas que às vezes se parece muito com um abismo. E é preciso cuidado para não se precipitar, para não cair dentro dele acreditando que a queda é apenas mais uma forma de continuar.

No meio de tudo isso, o que me resta são os restos. E com os restos se pode fazer muitas coisas. Pode-se construir. Pode-se reconstruir. Pode-se escrever. Pode-se não fazer absolutamente nada. Há dias em que um pequeno resto me basta para fazer um monte. Em outros, tenho restos suficientes e não faço nada. Ou faço. Talvez até o nada seja uma forma de fazer alguma coisa. Tomei uma dose de vazio e outra, maior, de angústia. Tomei um copo cheio de falta tentando descobrir onde está o meu desejo. Não sei onde ele está. Não faço a mínima ideia. Ou talvez saiba. Talvez eu apenas não queira saber. Talvez não queira escrever sobre isso. Há coisas que permanecem no inconsciente justamente porque ainda não suportamos encontrá-las na consciência. E talvez isso não seja o mais importante. O mais importante é que escrevo para sangrar a minha alma. Escrevo para fechar sozinho os meus buracos. Escrevo para que os meus vazios não sejam preenchidos com qualquer coisa, com qualquer pessoa, com qualquer promessa. Não quero qualquer preenchimento. Quero alguma coisa que eu ainda não sei nomear. E talvez seja justamente por não saber nomeá-la que continuo procurando. Não existe fórmula para preencher nada. Não existe manual para a falta. Não existe uma medida exata para saber quanto de vazio uma pessoa pode suportar antes de começar a transbordar. E a vida talvez seja isso. Uma tentativa permanente de encontrar uma medida que não existe. Se você se preenche demais, talvez deixe de procurar. Se sabe demais, talvez deixe de desejar. Se sabe de menos, também pode se perder. Tudo em excesso faz mal. E a falta também. Talvez o problema seja nunca saber exatamente quanto é suficiente.

No meio da escrita, tenho devaneios. A mente se desvia, tropeça em alguma coisa, encontra uma lembrança, uma palavra, uma imagem que eu não estava procurando. E então fico curioso. Atento. Como se minhas próprias mãos soubessem para onde estão me levando. Talvez eu pare por aqui. Talvez não. Sou conduzido por elas, pelas mãos que continuam escrevendo mesmo quando eu já não sei o que dizer. O sangue inunda o meu ser. As lágrimas vermelhas descem por dentro. Não choro. Escrevo. Talvez, se eu chorasse na mesma proporção em que escrevo, o planeta acabasse submerso em um oceano de lágrimas. Talvez seja por isso que eu escreva. Para não inundar o mundo. Para não me afogar completamente. Para continuar respirando entre uma palavra e outra. Porque, no fim, talvez o inconsciente também sangre. Só não faz barulho.

ESCRITO POR Jorge Lannes Junior 2 K leituras
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