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Viver Não Tem Cura

Há dores que não pedem cura, apenas uma linguagem capaz de suportá-las. Este texto nasce desse lugar onde a falta permanece, mesmo quando tudo parece ter sido dito, e onde viver talvez seja aprender a atravessar o que não desaparece.

Viver não tem cura.

Talvez seja essa a primeira coisa que precisamos aceitar quando percebemos que certas dores não passam. Elas apenas mudam de lugar.

Há aquilo que se cala dentro da gente e, ainda assim, continua fazendo barulho.

A ausência não precisa de corpo para ocupar espaço. Às vezes, basta uma lembrança. Um cheiro. Uma palavra que chega tarde demais. Um nome que já não deveria significar nada, mas continua significando.

Tentamos preencher.

Preenchemos o tempo, a casa, os dias, as conversas, os silêncios.

Mas há faltas que não aceitam preenchimento.

E talvez seja justamente aí que começa o sofrimento: quando descobrimos que aquilo que procuramos fora sempre esteve marcado por alguma coisa que não sabemos nomear dentro.

Passamos a vida tentando nos livrar de nós mesmos.

Mudamos de lugar, de pessoas, de hábitos, de desejos. Inventamos versões mais suportáveis de quem somos e, por algum tempo, acreditamos nelas.

Até que alguma coisa retorna.

Não como lembrança, mas como presença.

Aquilo que pensávamos ter superado reaparece sem pedir licença, atravessando o corpo, interrompendo o pensamento, devolvendo à superfície aquilo que havíamos enterrado apenas para continuar funcionando.

Talvez não exista cura para certas faltas.

Talvez exista apenas uma maneira diferente de carregá-las.

Não como quem carrega uma condenação, mas como quem finalmente compreende que algumas feridas não precisam desaparecer para que possamos continuar.

Porque viver não é deixar de sofrer.

É descobrir que, mesmo quando alguma coisa em nós permanece quebrada, ainda existe movimento.

Ainda existe palavra.

Ainda existe desejo.

E talvez seja isso que nos salva.

Não a cura.

Mas a possibilidade de continuar, mesmo sem saber exatamente para onde.

ESCRITO POR Jorge Lannes Junior 4 K leituras
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