Domingo também é um estado de linguagem.
E há domingos em que a única paisagem possível é aquela que inventamos para continuar tentando existir.
Passei um domingo inteiro entre os meus devaneios. Meu abrigo foi a loucura, porque a lucidez, para mim, nunca bastou. Entre uma palavra e outra, escrevi alguma coisa, mesmo sem querer escrever. Talvez tenha escrito justamente por isso. Lucidez demais também mata. Às vezes é a loucura que preserva aquilo que ainda insiste em viver.
Dizem que de perto ninguém é normal. Talvez porque a normalidade seja apenas uma ficção bem ensaiada. O mundo, por vezes, também se torna insuportavelmente tedioso. Para alguns, o domingo pesa. Para outros, apenas passa. Para mim, ele permanece. Não como um dia da semana, mas como um estado de existência. Um tempo que não corre, apenas me atravessa.
É só mais um dia que se vai. Ou que vem. Talvez eu esteja louco. Talvez seja justamente a lucidez que tenha enlouquecido primeiro.
Cada um escolhe o que fazer com os seus domingos. Uns dormem, outros fogem, alguns amam. Eu escolhi me refugiar em plena loucura. Foi nela que encontrei um abrigo melhor do que a própria lucidez. A sanidade nunca soube me acolher como a loucura acolheu os meus restos. Escrever, no fim, talvez seja apenas isso: deixar que a loucura diga aquilo que a lucidez passou a vida inteira tentando calar.
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