Solidão e Desejo
Fico hipnotizado, olhando a parede, até virar o rosto e olhar para a janela. A chuva cai, e por alguns instantes eu fico esperando que, junto dela, caia alguma coisa por aqui. Um amor. Uma resposta. Qualquer coisa que atravesse o vidro e faça companhia.
Mas não cai amor.
São só águas.
Águas que despencam do céu, escorrem pelo vidro e seguem seu caminho, enquanto eu permaneço aqui, acordado, tentando entender o que faço com aquilo que não passa.
Estou sem sono. Um pouco triste. E talvez a tristeza seja apenas isso: uma coisa que chega sem pedir licença, senta ao nosso lado e fica em silêncio.
Mas vai passar.
Eu sei que vai.
Porque eu também já caí.
Já me quebrei inteiro, já pensei que não havia mais nada para juntar, e mesmo assim alguma coisa em mim insistiu em nascer de novo.
Talvez seja por isso que eu ame tanto os pássaros e os bichos. Eles não precisam explicar a liberdade. Eles simplesmente existem. Voam, caminham, partem, retornam. E, de algum modo, me lembram que ainda é possível recomeçar.
A noite continua.
A chuva continua.
E eu continuo também.
Talvez seja isso que a gente chama de renascer: não voltar a ser quem era, mas descobrir que, mesmo depois de tudo, ainda existe alguma coisa dentro da gente que se recusa a morrer.
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