Quando a angústia me nomeia
A angústia que me dá um nome
E hoje, novamente, depois das dezoito horas, quando a noite começa a se insinuar pelas frestas do dia, veio aquela angústia que eu não consigo nomear. É como se tudo o que eu fizesse estivesse errado, mesmo quando, aos olhos de qualquer outro, pudesse parecer lindamente incrível. Talvez seja justamente por isso que eu escreva. Mas escrevo para quê? Não para dar um nome à angústia. Escrevo para que a angústia me dê um nome.
Para que ela diga alguma coisa sobre mim que eu talvez ainda não tenha coragem de dizer sobre mim mesmo. E então eu vejo se aceito. É como quando alguém pede perdão: há o instante em que se decide entre aceitar e rejeitar. Às vezes se aceita, mas nunca é a mesma coisa. O perdão recebido não devolve necessariamente aquilo que existia antes dele.
Talvez seja por isso que a angústia se manifeste de tantas formas. Porque também existem muitas formas de amar, e nenhuma delas sabe verdadeiramente se explicar. Cada indivíduo explica à sua maneira. Cada teoria encontra uma forma de dizer. Cada amor inventa seu próprio idioma. Até cada clamor em oração é diferente. Cada mundo é diferente.
E cada ser humano é diferente de outro, ainda que às vezes passemos a vida tentando nos convencer do contrário. Uma toalha branca à minha direita não é uma toalha preta à minha esquerda, assim como uma vassoura atrás de mim não é nenhuma das duas. Uma garrafa pode carregar o rótulo de Coca-Cola e não conter Coca-Cola alguma. Pode conter água de canjica. E as aparências enganam, não é? Talvez seja justamente aí que mora o engano: no que parece ser uma coisa e guarda outra dentro de si.
Eu também. Talvez eu também carregue rótulos que não correspondem ao que existe dentro de mim. Escrevo não porque quero, mas porque existe uma força que atravessa aquilo que sou e me obriga a transformar em palavra aquilo que talvez eu preferisse deixar em silêncio. Uma força quase sobrenatural, não porque eu saiba de onde vem, mas porque, quando chega, não me pergunta se quero. Ela simplesmente me atravessa.
E talvez eu seja transvestido daquilo que não sou, ou talvez seja justamente naquilo que escrevo que eu apareça sem a roupa que uso para sobreviver ao mundo. Quem me lê pode supor muitas coisas. Pode dizer: coitado, depressivo. Pode imaginar uma tristeza onde existe apenas pensamento. Pode imaginar um abismo onde existe apenas profundidade. Pode ser o oposto disso. Ou pode ser exatamente isso. Nunca se sabe.
Eu não sou de dar explicações. E não é somente quando escrevo. Eu não gosto de me explicar para alguém neste mundo. Nem quando estou trabalhando, nem quando estou diante daqueles que caminham comigo no axé, nem quando preciso justificar aquilo que sinto, aquilo que penso ou aquilo que simplesmente sou. Até mesmo diante de Mulambo, aquela mulher que carrego no peito e que, de algum modo que não sei explicar, nunca me desampara. E diante de Maria Padilha, das Sete Encruzilhadas, que talvez eu nem sempre veja, mas que reconheço quando minha alma perambula por aí, pelas esquinas que ninguém enxerga, pelas encruzilhadas onde o caminho deixa de ser apenas caminho e passa a ser escolha, dúvida, encontro.
É nessas andanças que talvez eu encontre também a mim mesmo. Um eu que não está sentado diante do espelho esperando ser reconhecido, mas um eu que se perde, que perambula, que atravessa ruas internas, que aparece às vezes no lugar mais improvável e me pergunta quem sou eu quando ninguém está me perguntando nada. Talvez seja esse o meu encontro comigo: não quando me encontro, mas quando me perco de mim.
E talvez seja por isso que a alma perambula. Porque há coisas que só podem ser encontradas quando deixamos de procurá-las. E a vida é feita disso. Mas disso o quê? De conversas, afetos, desafetos, brigas, tragédias, mortes, nascimentos, renascimentos, anos ruins, anos que parecem não acabar, como este, que, pelo menos para mim, foi horrível.
E então eu caio novamente no autoengano, acreditando que, depois de escrever, a angústia vai passar. Não passa. Talvez nunca tenha sido essa a função da escrita. Depois que escrevo, eu apenas entrego o que estava dentro de mim à tecnologia, ao celular, à possibilidade de um livro. E digo possibilidade porque talvez eu não queira publicar nada disso. Talvez essas palavras sejam apenas minhas.
Talvez seja um lugar onde eu possa depositar aquilo que não consigo dizer em voz alta. Ou talvez eu queira expulsar para o mundo algumas das pragas que ainda existem em mim, como quem abre uma janela durante a madrugada e permite que o ar leve embora aquilo que já não cabe dentro de casa.
Talvez escrever seja isso: não curar a angústia, não explicá-la, não vencê-la, mas permitir que ela me atravesse até que, em algum momento, cansada de me perseguir, ela mesma diga quem eu sou. E então talvez eu leia. Talvez eu aceite. Talvez eu rejeite. Talvez eu nem saiba fazer nenhuma das duas coisas. Porque há nomes que não foram feitos para serem aceitos ou recusados. Foram feitos apenas para nos lembrar que, antes de qualquer nome, qualquer diagnóstico, qualquer rótulo, qualquer teoria, qualquer explicação, existe alguém tentando descobrir o próprio rosto no escuro.
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