O que falta e o que vem
Sinto uma angústia fortíssima quando o imprevisível acontece.
E aí, sentado no meu sofá, entre um cigarro aceso, tenho uns devaneios de querer saber de onde veio e onde se originou esse resto de angústia. Porque ela nunca vem completa. E não era pra estar assim.
Hoje eu fui a um grupo onde pratico uma recuperação que faço minha, que não quero escrever aqui. Voltei. O único previsto do dia era o medicamento que eu tinha que comprar, mas o financeiro não deixou. Mas amanhã haverá outro dia, né? E como haverá outros e outros.
Desloco-me para a cozinha e continuo escrevendo, volto, sento no sofá, pego um cigarro de novo. O barulho do vento na janela batendo, mas o meu peito se enchendo.
Talvez seja o sangue do meu coração dando curto-circuito. Ou talvez eu tenha a maldição de sentir angústia o resto da vida.
É melhor do que não sentir nada.
Ligo a televisão, só pra dizer que ela tá ligada. Procuro conversar com alguém, com um ou com outro. Mas no final me sinto sozinho e abandonado. Apesar de que, de certa forma, eu mesmo me abandono. Não gosto de muita gente em cima de mim.
Talvez seja isso. Um renovo.
A ida ao grupo me fez ver muita gente, muita gente na minha cabeça. E agora eu tô sentindo o efeito disso.
E escrevo de uma forma leve, mesmo que pareça um peso. Porque eu escrevo de uma forma leve, com um peso no peito e nos ombros.
E nem a TV liguei, porque não consegui tirar a mão da caneta. Agora liguei.
Mas há algo que falta em mim, que faltará para sempre. E eu não sei o porquê e não procuro saber. Até porque talvez faltará para sempre.
Tomo um copo de Coca-Cola, acendo outro cigarro e deixo a fumaça subir.
Deixo não, ela quem sobe.
E antes de tudo, eu não ia escrever.
E depois de tudo que escrevi, me deparo com a escrita de alguém que pode estar sofrendo de algo. E que não seja tão ruim assim.
Porque quando se sofre, ainda tá vivo, né?
E é justamente isso.
Só estou vivo porque nasci.
E paradoxalmente, consequentemente, sobrevivo vivo e, se talvez eu tenha um fundamento nessa vida, seja algo que eu não sei.
Será que seria escrever?
Ou será que seria dar aquilo que eu nem tenho?
Não sei e não procuro saber.
Certas coisas não é pra procurar saber.
É para deixar vir com o tempo.
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