O contorno daquilo que me escapa
Não tente me decifrar. Há coisas em mim que nem a linguagem alcança, segredos que não confio ao papel e pensamentos que, quando se aproximam da consciência, parecem perder a própria forma. Sou feito de ausências que não sei nomear, de desejos que se alimentam daquilo que não alcanço e de angústias que, por vezes, parecem conhecer meu endereço melhor do que eu mesmo.
Carrego papéis, canetas e essa necessidade quase clandestina de escrever. Talvez eu escreva para dar contorno ao que me escapa, embora saiba que toda palavra também inaugura um novo desconhecido. Quanto mais procuro me compreender, mais descubro que existe em mim uma região que não se deixa visitar sem cobrar alguma coisa em troca.
Há dias em que desejo o silêncio, não aquele que se impõe ao mundo, mas o que preciso construir dentro de mim. Quero aquietar as mãos, suspender o pensamento e permitir que meu corpo exista sem a obrigação de representar alguma coisa. Entretanto, até o silêncio me interroga.
Sou multifacetado, mas nenhuma face me contempla por inteiro. Desenho curvas, invento versões, experimento contornos; ainda assim, não me reconheço em nenhuma dessas formas. Talvez meu equívoco seja procurar uma imagem definitiva onde só existe movimento. Talvez eu passe a vida tentando encontrar meu rosto nos espelhos errados.
E, no fim, continuo escrevendo. Não porque tenha me encontrado, mas porque ainda desconfio que, entre uma palavra e outra, alguma coisa de mim possa finalmente aparecer. Ou desaparecer de vez, deixando no papel apenas o vestígio de alguém que nunca terminou de ser.
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