Tema

A natureza secreta das coisas

Tenho uma pedra grande e outra pequena, que trouxe para casa depois de pedir licença na cachoeira. Uma permanece em minha estante, entre os livros; a outra, no rack, abaixo da televisão. Não sei por que as trouxe. Talvez algumas coisas precisem sair da natureza para que possamos descobrir a natureza de certas coisas dentro de nós. E eu fico aqui, escrevendo, sem saber exatamente por quê. Talvez por puro tédio, por tempo ocioso ou por essa necessidade estranha de preencher o vazio com alguma coisa que, no fundo, talvez seja o próprio vazio disfarçado. O curioso é que, para sair do tédio, preciso entrar nele novamente. Há labirintos dos quais só se encontra a saída quando se aceita percorrê-los por dentro.

Tive um cachorro a quem dei o nome de Tom, e o bicho me amava muito. Quando eu estava no sofá, triste e solitário, ele parecia saber. Aproximava-se devagar, pousava as patinhas na minha cabeça e me fazia carinho. Não sei se compreendia a minha tristeza ou se simplesmente reconhecia em mim alguma coisa que os outros não viam. Talvez os animais não precisem compreender aquilo que sentem. Talvez sejamos nós que, de tanto tentar compreender, desaprendamos a sentir. Recebi mais afeto de bicho do que de gente, e isso não me surpreende. Bicho costuma ser mais carinhoso que gente. Não todos, é claro. Mas há uma delicadeza nos animais que não exige explicações, não pede que sejamos diferentes do que somos, nem nos obriga a traduzir a tristeza para merecer companhia.

Eu e meus desejos, meus desejos e eu. O que desejo não posso ter; aquilo que posso ter, não desejo. Há em mim uma espécie de desencontro entre a vontade e a possibilidade, como se o desejo precisasse permanecer distante para continuar sendo desejo. Talvez eu não queira apenas aquilo que me falta, mas também aquilo que, se alcançado, me obrigaria a descobrir quem sou sem a falta. E o que seria de mim sem certas ausências? Sou completamente estranho. Tive de respeitar isso. Nem toda estranheza precisa de cura; algumas precisam apenas de um lugar onde possam existir sem serem interrogadas o tempo inteiro.

Preciso ir à minha psicanalista para tagarelar. Falo, falo, e, quando a sessão termina, às vezes me dou conta de que aquilo que parecia tão evidente já não me pertence da mesma maneira. Como se, ao pronunciar certas palavras, eu as retirasse de um lugar obscuro e as colocasse diante de mim, para finalmente reconhecê-las. Talvez a análise seja também esse encontro com um desconhecido que mora na gente e, ainda assim, insiste em nos chamar pelo nome. Às vezes faço contas e fecho contas, como se a vida pudesse ser resolvida pela exatidão dos números. Mas há contas que não fecham, e talvez seja justamente nelas que alguma coisa de nós permaneça aberta.

Cada palavra que escrevo é amor, pois acredito que cada palavra carrega um toque de amor. Até as palavras raiva e ódio guardam alguma coisa dele, nem que seja a marca de sua ausência. Talvez porque o contrário do amor não seja necessariamente o ódio, mas a indiferença, esse lugar onde o outro já não provoca movimento algum dentro de nós. Quem sabe a raiva seja uma forma desfigurada de vínculo, e o ódio, uma intimidade que perdeu a capacidade de reconhecer a si mesma. Ninguém ama ou odeia por inteiro. Há sempre alguma coisa que escapa àquilo que sentimos, uma sombra atrás do sentimento, um avesso que não se deixa revelar completamente. Talvez.

Acendo um cigarro e fico pensando no que, definitivamente, é o amor. Não sei. Talvez seja tudo aquilo que não pensamos, o que se movimenta em nós antes que a consciência lhe atribua um nome. Talvez seja o avesso, a parte oculta que nos governa enquanto acreditamos estar no comando. Ou talvez seja a linguagem tentando alcançar aquilo que não pode ser inteiramente dito. Jung talvez chamasse a atenção para os mistérios que carregamos sem conhecer, para essa região interior em que o que somos e o que desconhecemos de nós mesmos se encontram. Mas não quero explicar o amor. Explicá-lo seria correr o risco de encerrá-lo numa definição, quando talvez ele só exista plenamente naquilo que nos escapa.

E eu não quero dizer mais nada.

ESCRITO POR Jorge Lannes Júnior 11 K leituras
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