O martelo do vizinho e outras urgências
Hoje acordei, acendi minha luz, a vela do anjo da guarda, tomei café, almocei e o sono veio. Decidi que dormiria um pouco à tarde. Sem culpa, sem grandes justificativas, apenas porque o corpo pediu e eu resolvi atender. Dormi profundamente, até que o vizinho começou com aquele bate, bate, bate, bate, bate do martelo, devolvendo-me à realidade sem a menor delicadeza.
Por alguns instantes, quis continuar dormindo. Mas talvez aquele barulho tivesse uma finalidade que nem o próprio vizinho conhecesse. Fui acordado e descobri que mamãe havia feito um bolo. Um bolo no forno, esperando por mim como se a tarde tivesse preparado uma pequena surpresa.
Devorei tudo com café, como se não comesse havia anos. E não sei se foi fome, gula ou simplesmente vontade de aproveitar alguma coisa boa sem fazer perguntas demais. Há momentos em que a gente não precisa investigar o desejo. Basta pegar o prato, servir mais um pedaço e comer.
Agora estou aqui, escrevendo com um cigarro e uma música que gosto, embora não saiba o nome de muitas dessas canções antigas. São músicas de uma época que me agrada, dessas que permanecem no ouvido mesmo quando seus nomes escapam da memória. E eu, que também não sei direito o que estou escrevendo, continuo.
Porque escrevo onde for possível escrever. Na parede do quarto, na cozinha, na sala, no amor, na segurança, na sala de espera do consultório da minha psicanalista ou sentado no sofá, com as pernas cruzadas. Não há um lugar definitivo para aquilo que ainda não encontrou forma. Às vezes, basta um canto, um cigarro, uma música e essa vontade de colocar para fora alguma coisa que nem sei nomear.
Escrever é um desafio porque nunca sabemos o que o outro vai ler. Nem sempre sabemos o que nós mesmos estamos dizendo. Começamos por uma coisa, atravessamos outra e, quando percebemos, estamos falando de assuntos que sequer estavam na nossa intenção inicial.
A escrita tem dessas liberdades. A gente pensa que está conduzindo o texto, mas, de repente, ele nos leva para um lugar desconhecido. E o que era apenas uma tarde de sono interrompido transforma-se em alguma reflexão sobre a vida, o tempo, a falta e o desejo.
Sai de mim para ir para outro lugar.
Talvez seja por isso que continuo escrevendo sem saber exatamente aonde vou chegar. Não escrevo para resolver o mundo, muito menos para oferecer respostas a quem não me perguntou nada. Escrevo porque, às vezes, uma palavra chama outra, uma lembrança puxa uma ideia e, quando me dou conta, já existe alguma coisa diante de mim que antes estava escondida em algum lugar de dentro.
Hoje, por exemplo, a angústia não veio me visitar. A loucura não deixa. Ou talvez eu tenha tido apenas uma tarde comum, e a gente precise aprender a não desconfiar tanto dos momentos em que nada parece desmoronar. Nem toda tranquilidade esconde uma tragédia. Nem todo silêncio anuncia o fim de alguma coisa.
Sou filho da falta e desejante do desejo. Insaciável, talvez. Escrevo como quem procura alguma coisa sem ter certeza de que ela existe, e continuo procurando mesmo quando já não sei o que procuro. Há uma contradição nisso tudo, mas não me parece necessário resolvê-la.
A tarde vai acabando. Logo será noite, depois será madrugada, e em algum momento dormirei novamente para acordar no dia seguinte e repetir essa estranha experiência de estar vivo. O tempo passa enquanto fazemos coisas simples, e nós quase nunca percebemos. Comemos, dormimos, acordamos, reclamamos e seguimos como se tivéssemos alguma ideia muito clara do que estamos fazendo por aqui.
Ser humano é engraçado. E eu também sou ser humano, portanto, não estou de fora dessa comédia.
Está quente demais, reclamamos. Tem vento, reclamamos. Não tem vento, reclamamos. Às vezes, conseguimos o que queríamos e logo descobrimos que queríamos outra coisa. Parece que a satisfação tem pernas curtas, enquanto o desejo sabe caminhar por distâncias intermináveis.
O que, afinal, eu quero?
Não sei. Talvez seja essa a única resposta honesta que posso dar neste momento. Não sei o que quero da vida, do tempo, dos dias que passam ou das coisas que ainda espero. Sei apenas que, de vez em quando, consigo dormir em paz, acordar com um bolo feito por mamãe, ouvir uma música antiga e escrever sem ter a obrigação de chegar a lugar algum.
E talvez isso já seja alguma coisa.
Ou talvez não seja nada além de uma tarde que passou, um vizinho que bateu o martelo, um bolo que acabou depressa demais e um homem que resolveu escrever sobre tudo isso.
A vida não precisa ser extraordinária para merecer uma crônica. Às vezes, o extraordinário está justamente no fato de que nada extraordinário aconteceu.
Agora, se me dão licença, depois de tanto falar sobre a falta, o desejo, a existência e as contradições humanas, preciso resolver uma questão muito mais urgente.
Quero comer mais um pedaço de bolo.
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