Os pecados que escrevem em mim
Eu não escrevo para dar resposta a ninguém. Escrevo porque é assim que meu corpo encontra um jeito de continuar. Talvez o meu maior pecado seja ser ansioso demais. A ansiedade chega antes das palavras e, quando chega, não me deixa escrever. Porque eu não sei para onde as palavras vão. Nem onde elas terminam. Talvez eu nem precise saber. Talvez escrever seja justamente caminhar por aquilo que não conheço.
Mas talvez eu esteja perdendo o jeito de escrever. Verbo? Então escrever é apenas o modo de conjugar um verbo? Eu, tu, ele, nós, vós, eles. Não. Isso não faz parte de mim. Eu tenho o meu modo de escrever e também o meu modo de existir. Nenhum dos dois me adestra. Nenhum dos dois me obriga a absorver tudo aquilo que o mundo insiste em nomear como culpa, pecado ou desvio.
E então penso nos pecados capitais. Qual deles seria meu? A avareza? Não me apego aos bens materiais. Quase nada do que tenho parece realmente me pertencer. Tudo aquilo que escrevo nestas folhas, muitas vezes, termina queimado, rasgado, desaparecido. Talvez porque eu saiba que até as palavras precisam, às vezes, morrer para que outras possam nascer. A luxúria? Talvez exista em mim um desejo sexual que nem sempre consigo coordenar. Um desejo que não pede licença, que atravessa o corpo antes que a razão consiga alcançá-lo. A ira? Quando escrevo, há momentos em que uma raiva descontrolada atravessa minhas mãos. Mas não é uma raiva vingativa. Não quero devolver ao outro aquilo que um dia me feriu. Às vezes, apenas escrevo para que aquilo que me atravessa encontre algum lugar fora de mim. A gula? Não sei se tenho excessos nesse sentido. Talvez eu tenha outros. Devoro livros. Engulo palavras. Leio como quem tem fome. Escrevo como quem não consegue parar de procurar alguma coisa que sequer sabe nomear.
E existe o amor. Esse talvez seja o meu maior excesso. Porque também amo sem saber exatamente o que fazer com aquilo que sinto. Amo pessoas, memórias, palavras, livros, corpos, ausências e tudo aquilo que, por alguma razão, permanece em mim mesmo depois de ter ido embora. O amor também pode ser uma espécie de pecado quando nos atravessa sem pedir autorização. Ele também desorganiza. Também dói. Também nos faz perder o controle. Mas há alguma coisa nele que nenhum pecado consegue explicar. Talvez eu escreva também por amor. Por amor ao que vivi. Por amor ao que perdi. Por amor ao que ainda desejo. Por amor àquilo que não sei se um dia terei novamente. E talvez até por amor a mim, embora às vezes eu não saiba muito bem como fazer isso.
E existe o desânimo. Talvez esse seja o pecado que mais me acompanha ultimamente. Tenho me afastado até dos meus deveres espirituais. Há dias em que a alma parece pesada demais para alcançar aquilo que antes parecia tão próximo. Talvez seja justamente por isso que falo tanto dela. Talvez eu escreva sobre minha alma para que ela encontre algum espírito de luz capaz de me devolver alguma coisa que ainda possa me refletir.
Não sei. Talvez nenhum desses nomes dê conta de mim. Talvez o pecado esteja justamente nessa minha necessidade de procurar um nome para aquilo que não cabe em nome algum. Talvez o amor também esteja aí, escondido entre uma palavra e outra, entre aquilo que perdi e aquilo que ainda desejo encontrar.
E os ponteiros do relógio continuam se movendo. A madrugada avança. O corpo permanece. As palavras aparecem. Eu não sei para onde elas vão. Não sei onde terminam. Talvez nunca tenha sido necessário saber. Talvez eu apenas continue escrevendo. E talvez seja justamente aí, entre meus pecados, meus amores, minha alma e aquilo que ainda não consigo nomear, que alguma coisa de mim continue existindo. Talvez sejam os meus pecados que escrevam em mim. Talvez seja o amor. Talvez sejam os dois.
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