Caderninho velho
Nesta manhã, despertei sem saber exatamente em que momento do dia estava. Há horas que não pertencem ao relógio; pertencem àquilo que ainda não conseguimos nomear. O último diário terminou antes de mim. As páginas acabaram, e eu o queimei. Não foi exatamente um gesto de raiva. Talvez tenha sido pior: foi um gesto calmo. Fiquei olhando o papel se desfazer, a tinta escurecer antes de desaparecer, as palavras que um dia me pareceram tão definitivas reduzidas a uma matéria leve, quase sem peso, que o ar levava embora. Durante algum tempo, aquele diário havia sido uma espécie de testemunha. Sabia coisas que eu não dizia a ninguém. Conhecia meus excessos, minhas pequenas vergonhas, os pensamentos que só aparecem quando a casa dorme e a gente fica sozinho diante de si mesmo. Cada página guardava uma versão minha que, naquele momento, parecia ser a única possível. Depois, o fogo começou a apagar aquilo tudo. E houve alguma coisa de libertador em perceber que nem tudo precisa permanecer como documento.
Talvez eu tenha queimado o diário porque estava cansado de ser reconhecido por aquilo que eu mesmo havia escrito. Há uma violência delicada em reler o que fomos. A pessoa que escreveu continua ali, mas já não somos exatamente ela. Ou somos, o que talvez seja ainda mais incômodo. Queimar o caderno não queimou o que aconteceu. O passado não se deixa incinerar tão facilmente. Ele apenas perdeu o papel onde estava escrito. Ficou sem endereço. Talvez seja isso que me interessou no fogo: não destruir a memória, mas retirar dela a possibilidade de me cobrar uma explicação. As cinzas não perguntam quem eu fui. As cinzas não exigem coerência.
Depois procurei um caderninho velho. Não havia solenidade nele. Era apenas um objeto esquecido, com páginas que ainda aceitavam alguma coisa de mim. E comecei. A segunda-feira apareceu no meio disso tudo, quase como quem não quer ser percebida. Segunda-feira tem essa coisa de começo que ninguém pediu. Mas talvez nenhum começo seja realmente novo. Talvez apenas mudemos de página e chamemos isso de recomeço. Tenho gostado dessa maneira mais leve de escrever, embora alguma coisa em mim continue pesada. Escrevo sem me vigiar tanto, sem tentar descobrir imediatamente o que existe por trás de cada palavra. Talvez porque nem tudo queira ser descoberto. Há coisas que o inconsciente escreve antes que o sujeito perceba.
E, entre uma frase e outra, surgiu uma descoberta estranha: talvez seja gostoso conviver comigo. Talvez eu tenha passado tempo demais tentando suportar a minha própria presença sem perceber que, em algum lugar, havia também companhia. Não sei se isso é paz. Talvez seja apenas uma trégua. Freud talvez suspeitasse da trégua; Lacan talvez desconfiasse daquilo que chamo de eu. Eu, por enquanto, desconfio menos. Tenho o caderninho. Tenho a caneta. E isso, por hoje, basta.
A segunda-feira já se despede. O diário antigo virou cinza, mas alguma coisa dele continua respirando em mim. Talvez todo diário queimado deixe uma espécie de fantasma: não o fantasma das palavras, mas o da pessoa que precisou escrevê-las. O caderninho velho permanece aberto. E talvez seja por isso que eu goste dele: ainda não sabe nada sobre mim. Ainda não tem memória suficiente para me condenar. Amanhã, talvez eu escreva novamente. E talvez, desta vez, eu não precise guardar tudo. Talvez algumas coisas possam simplesmente desaparecer.
© 2026. Todos os direitos reservados ao autor. É proibido copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas ou utilizar comercialmente esta obra sem autorização expressa do autor.
Classificação de conteúdo:
Publicado

Comentários