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O Inferno de Quem Deseja

Há momentos em que desejo a tua presença, mas não a tua aproximação. Parece contradição, eu sei. Mas há dias em que mal consigo suportar aquilo que sou, e qualquer presença, mesmo desejada, ameaça o pouco de silêncio que ainda me resta.

Não é que eu não queira você. Talvez eu só não consiga querer você agora sem precisar abandonar a mim mesmo mais uma vez.

E você chama. Insiste. Procura nas minhas ausências alguma resposta que alivie a sua própria angústia. Mas não percebe que, enquanto tenta me alcançar, eu estou tentando voltar de algum lugar dentro de mim do qual nem sei se conseguirei sair inteiro.

Há algo de inquietante no desejo: queremos ser encontrados, mas nem sempre suportamos ser alcançados. Queremos que alguém permaneça, mas, quando a presença se torna exigência, sentimos a necessidade de fugir. Como se o outro, sem perceber, tocasse justamente naquilo que passamos a vida tentando esconder de nós mesmos.

E talvez seja aí que o desencontro comece. Você chama de afastamento aquilo que eu mal consigo chamar de sobrevivência. Você teme me perder, enquanto eu tento não me perder ainda mais.

Por isso, às vezes, não insista. Não transforme meu silêncio numa pergunta que eu precise responder, nem minha ausência numa culpa que eu precise reparar. Deixe-me atravessar o que é meu, porque existem dores que não suportam companhia e abismos que ninguém pode atravessar por nós.

Nem sempre quero que você vá embora. Às vezes, só preciso que a sua ausência me devolva a mim.

ESCRITO POR Jorge Lannes Júnior 12 K leituras
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