Tema

E se eu chorasse tudo o que escrevo?

Para meus pais.

E o que eu posso falar do amor?

Se eu pudesse ter um desejo mágico, gostaria que você e meu pai fossem eternos. Gostaria também de nunca precisar me afastar de vocês. É um amor crônico, amor de um desajeitado, desses que nem sempre sabem encontrar as palavras certas, mas que carregam dentro de si uma imensidão de sentimentos.

Queria que, por um instante, vocês ficassem invisíveis, entrassem no meu quarto e me vissem. Apenas observando. Sem perguntas, sem explicações. Queria que me vissem como sou quando não preciso fingir que está tudo bem.

Hoje, não acordei bem. E tudo bem não estar bem. Afinal, nem todos os dias são iguais, e graças a Deus por isso.

Aprender a se desprender de alguma coisa é amadurecimento. Será?

A única certeza que tenho sobre o amor - e talvez a única certeza absoluta que possuo - é que estou vivo. Vivo, vivo e vivo. Triste, feliz, contente, confuso, mas vivo. Compreendo que me entender já é complicado demais. Então, eu vivo.

E agora, o tempo?

O tempo é algo que se faz sobre ele. Ou será que somos nós que fazemos alguma coisa com o tempo, enquanto ele simplesmente passa? É com o tempo que aprecio ainda mais meus pais. É quando percebo que cada instante ao lado deles carrega uma importância que, talvez, eu nem sempre consiga reconhecer no momento em que acontece.

Será que, se pudéssemos controlar o tempo, ele seria bom ou ruim? Será que tudo seria melhor ou apenas encontraríamos outras maneiras de piorar as coisas?

Há um amor que precisa ser vivido no seu próprio tempo, sem a necessidade de controlar o tempo. Deixa o tempo no tempo dele.

Houve tempos de amor que talvez já não ame. Ou talvez ame de outra maneira. Quem sabe o amor também envelheça, mude de roupa, troque de endereço e continue existindo em algum lugar que já não sabemos visitar.

Será que minha depressão piorou ou melhorou? Que diferença faz? Eu estou vivo, e isso me basta.

Há dias em que não consigo sair de casa para cortar os cabelos, cuidar das unhas, fazer coisas que parecem tão simples para quem está de fora. Quando se está muito deprimido, nem sempre se consegue pensar nessas coisas. O mundo continua funcionando, a louça permanece na pia, os dias passam, mas há momentos em que até o mais simples parece distante.

E a gente sabe tanta coisa.

A gente sabe que um pai pode ter cem mil defeitos, mas continuará sendo nosso pai, com duzentas mil qualidades que também fazem parte dele. Uma mãe, ah, essa também pode ter seus defeitos, mas suas qualidades tantas vezes nos ultrapassam, especialmente quando começamos a compreender tudo aquilo que ela fez sem precisar anunciar.

A gente sabe que há pessoas que não gostam da gente. Sabe que precisa respeitar os pais, educar os filhos, lavar a louça que ficou na pia. Sabe que ajudar um colega de trabalho pode significar alguma coisa. Sabe de tantas coisas, mas nem sempre consegue transformar o que sabe em gesto, em presença, em cuidado.

No fundo, a gente sabe que, se eu escrevo, é porque vim do ventre da minha mãe. Nasci chorando demais e talvez por isso não chore tanto hoje em dia.

E o que eu não choro, escrevo.

Talvez exista um mistério nisso. Talvez as palavras sejam o caminho que encontrei para dar passagem ao que ficou preso em algum lugar de mim. Talvez eu escreva porque há sentimentos que não encontram saída pelos olhos e acabam procurando uma saída pelas mãos.

E se eu chorasse tudo o que escrevo?

Será que inundaria o mundo?

"Texto escrito em 2020."

ESCRITO POR Jorge Lannes Júnior 10 K leituras
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