Tema

Camadas de Silêncio

Estava conversando com mamãe quando me ocorreu que deve haver uma angústia silenciosa em um leito, esperando outro ser nascer. Imaginei a força do parto normal, a cesariana, as sete camadas de pele que precisam ser atravessadas. E olha que nasci desse segundo parto. Fiquei pensando nessas camadas: queria-as para me vestir de desejo, falta, angústia. Como se a pele pudesse guardar aquilo que a existência não consegue explicar. A maternidade provavelmente é incrível, mas o que acontece com a mulher que existia antes dela? Antes de ser mãe, havia uma mulher. E depois de atravessar uma dor imensa, ainda lhe cobram mais. O século é XXI, mas parece que certas coisas continuam nascendo mortas. E o pai? Não sentiu as dores do parto, embora tenha participado do coito, sem que o interrompessem por isso. Um homem vai sozinho à padaria, ou até a uma festa, e perguntam pelo filho: como está o filhão? À mulher, quase nunca perguntam. Antes de qualquer resposta, chegam os olhares, essas perguntas que não precisam ser pronunciadas: ela não cuida do filho? Ninguém pergunta sobre a saúde daquela que também pode adoecer. Ninguém parece querer escutar a mulher por trás da mãe. E, quando ela surta, o mundo encontra rapidamente um nome para não precisar compreendê-la: mãe louca.

Uma mulher, mesmo depois de se tornar mãe, não deixa de precisar de cuidados. O pai também precisa, mas parece que a mulher precisa provar até o direito de precisar. Afinal, foi do corpo de uma mulher que nasceram os homens. E, se não houvesse mulheres no mundo, de onde viria essa humanidade que tantas vezes as condena?

Já escrevi que o século atual é o XXI e que, apesar de toda a passagem do tempo, praticamente nada mudou. Talvez por isso os jornais ainda escrevam: "Mulher foge após um surto do nada."

Do nada. Como se a dor não tivesse história, como se o silêncio não acumulasse camadas, como se uma mulher pudesse desaparecer de si mesma sem que ninguém tivesse ajudado a empurrá-la para longe.

ESCRITO POR Jorge Lannes Júnior 10 K leituras
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