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O ENIGMA DO AGORA

Queria ter passado um domingo inteiro isolado. Era esse o desejo, ou pelo menos aquilo que eu imaginava ser o desejo. Mas uma força espiritual, dessas que chegam antes que o pensamento consiga nomeá-las, atravessou o meu domingo e me levou ao sagrado. Criança é beijada. Houve bolo, doce, cocada, manjar, piscina de bolinhas de sabão. Houve coisas boas, dessas que parecem pequenas quando vistas de fora, mas que alguma coisa em nós reconhece imediatamente. A espiritualidade sabe o que faz. Eu também sei. Ou penso que sei. E talvez seja justamente aí que comece o problema: o sujeito acredita saber aquilo que quer, até que alguma coisa do desejo aparece e desarruma a casa inteira.

Mas não é muito disso que quero escrever. Chego em casa e me pergunto: e agora, o que faço? Talvez escrever seja uma maneira de não responder. Vou escrever tudo aquilo que ficou preso e amarrado desde cedo, tudo aquilo que passou o dia circulando por dentro sem encontrar uma saída pela boca. O domingo passou, mas não passou por cima de mim. Alguma coisa permaneceu. O tempo avançou lá fora, enquanto aqui dentro uma coisa qualquer continuou parada, olhando para mim. Não posso afirmar que estou morto, tampouco que estou vivo. Existe esse intervalo estranho, esse lugar sem nome onde o sujeito permanece respirando sem saber exatamente o que sustenta a respiração. Mas estou respirando. Graças a Deus, isso já é alguma coisa. Talvez, por enquanto, seja tudo.

Queria que minha mente não pensasse tão aceleradamente no futuro. Ela corre para lá como se soubesse alguma coisa que eu não sei, como se o futuro fosse um lugar onde finalmente encontraria aquilo que falta. Mas o futuro nunca chega. Quando chega, já virou presente, e o presente, esse miserável, escapa imediatamente para o passado. Talvez por isso eu fique repetindo para mim mesmo: aqui e agora, agora e aqui. Como se a repetição pudesse fazer existir aquilo que o tempo insiste em levar.

Aqui e agora.
Agora e aqui.
O instante escapa.
E eu permaneço.

Acendo esse cigarro. A fumaça vai. É curioso como aquilo que desaparece consegue ocupar tanto espaço antes de desaparecer. Tomo um Guaracamp e fico pensando que talvez a vida seja feita dessas pequenas cerimônias que inventamos para suportar o intervalo entre uma coisa e outra. Mais tarde, vou tomar uma bela dose de felicidade, que vou buscar por aí. Não sei exatamente onde ela está, nem se é felicidade o nome correto. Talvez seja apenas uma distração bem construída. Talvez seja desejo. Talvez seja falta. E talvez a diferença entre essas três coisas seja justamente aquilo que eu não consigo dizer.

Queria que minha alma perambulasse pelas ruas. Embora eu suspeite que ela já faça isso quando durmo. Talvez dormir seja uma pequena morte permitida, um desaparecimento cotidiano em que alguma coisa de nós sai por aí sem pedir autorização ao consciente. E então amanhece, o corpo permanece, os olhos se abrem e a gente finge que voltou inteiro. Mas será que voltou? Ou será que apenas retomou o lugar que ocupava antes de partir?

O inconsciente não bate à porta.
Ele entra por uma fresta.
Fala quando ninguém pergunta.
E deixa o resto em silêncio.

Que viva eu, que viva a vida, que vivam os vivos e vivam os mortos. Vivereis. Viva os Erês, viva as Ibeijadas. Há alguma coisa nessa alegria infantil que me desconcerta, talvez porque a criança ainda não tenha aprendido completamente a esconder aquilo que deseja. O adulto aprende cedo demais a disfarçar. Aprende a chamar de prudência aquilo que é medo, de maturidade aquilo que é renúncia, de escolha aquilo que às vezes foi apenas obediência. A criança aponta. A criança quer. A criança ri. E talvez seja por isso que o sagrado, às vezes, apareça justamente onde ninguém estava procurando: no doce, no bolo, na brincadeira, naquilo que parece pequeno demais para carregar um mistério.

E que viva tudo aquilo que eu encontrar na estrada. Não tudo, porque alguma coisa pode ser ruim. O que vier de ruim bate no meu peito e volta para quem mandou. Não quero transformar meu corpo em depósito do desejo alheio. Há coisas que pertencem ao outro e que não precisam fazer morada em mim. Talvez seja essa uma das tarefas mais difíceis: distinguir aquilo que desejo daquilo que me foi desejado; aquilo que escolhi daquilo que colocaram em minhas mãos; aquilo que sou daquilo que esperavam que eu fosse.

Ó Deus, escrevo purificamente. Mesmo com um cigarro entre os dedos, rogo e faço minhas preces. Talvez não exista pureza alguma, e talvez Deus já saiba disso. Pai-Nosso e Ave-Maria. Eu rezo todo santo dia. Rezo porque alguma coisa em mim ainda acredita que falar é possível mesmo quando não há resposta. Rezo porque há silêncios que parecem escutar. E talvez seja justamente aí que esteja o mistério: não saber se estou falando com Deus, comigo mesmo ou com alguma coisa que existe entre os dois.

No fim, talvez eu não queira uma resposta. Talvez eu queira apenas continuar perguntando. Porque o desejo não vive daquilo que encontra, mas daquilo que continua faltando. E há uma falta que me acompanha pelas ruas, entra comigo em casa, senta ao meu lado, observa enquanto acendo o cigarro e permanece quieta enquanto escrevo. Não sei o nome dela. Talvez nem deva saber.

Talvez o nome seja justamente aquilo que estraga o enigma.

E eu continuo.

Respirando.
Escrevendo.
Procurando.

Sem saber exatamente o quê.

ESCRITO POR Jorge Lannes Junior 8 K leituras
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