Entre o que se perde e o que permanece
Eu vivo. Não porque tenha descoberto alguma razão suficientemente grande para justificar a existência, mas porque, de algum modo, continuo aqui. E talvez continuar seja uma das formas mais silenciosas de coragem.
De ontem para hoje, alguma coisa em mim atravessou a noite. Não sei dizer exatamente o quê. Talvez tenha sido apenas o tempo. Talvez eu mesmo, carregado pelos minutos, pelos ruídos da casa, pela luz que muda de lugar na parede, pelo ventilador insistindo no mesmo movimento, pelos pássaros anunciando que a manhã chegou sem pedir licença.
Há momentos em que penso que viver é isso: permanecer enquanto tudo muda.
Não sei se me foi dada uma missão. Se existe alguma, ela ainda não me disse seu nome. Talvez eu não tenha vindo para cumprir coisa alguma. Talvez tenha vindo apenas para não me abandonar completamente quando eu mesmo me perder.
Porque eu me perco.
Perco-me nas coisas pequenas, nos pensamentos que crescem no escuro, nas palavras que não encontram saída, nas portas que permanecem abertas quando deveriam fechar e nas que se fecham justamente quando ainda havia alguma coisa para dizer.
Mas eu volto.
Sempre há alguma coisa em mim que volta.
E quando retorno, recolho o que ficou pelo caminho. Um fragmento, um caco, uma lembrança, uma palavra interrompida, uma parte de mim que eu havia esquecido em algum lugar. Não recolho para reconstruir aquilo que fui. Recolho para descobrir o que ainda posso ser.
Talvez seja isso que chamamos de reinvenção.
Não nascer novamente, mas aprender a existir com aquilo que restou.
Um dia, entre uma curva e outra, a vida me recolherá. Não sei quando, nem onde, nem sob qual céu. Talvez eu volte às cinzas. Talvez alguma coisa permaneça. Talvez nada permaneça além daquilo que consegui dizer enquanto estive aqui.
E tudo bem.
Há coisas que não precisam permanecer para terem existido.
Uma janela aberta já foi uma janela aberta. Um pássaro que cantou já modificou o silêncio. Uma noite que terminou já carregou consigo aquilo que não poderia durar. E um amanhecer, mesmo quando parece igual a tantos outros, sempre encontra uma maneira diferente de nascer.
Talvez a vida seja feita disso: pequenas diferenças escondidas dentro daquilo que parece repetição.
Um quadro na parede. Uma sombra sobre o chão. O ruído do ventilador. A janela entreaberta. A noite se desfazendo lentamente. Os pássaros ocupando o espaço que antes pertencia ao silêncio.
E nós, no meio de tudo isso, tentando compreender o que não foi feito para ser compreendido.
Porque talvez o enigma não esteja esperando uma resposta.
Talvez ele seja a própria resposta.
Talvez viver seja aprender a caminhar dentro daquilo que não sabemos, sem exigir que o desconhecido nos explique por que estamos aqui.
Eu escrevo porque alguma coisa em mim não suporta permanecer calada.
Minha linguagem não pede certezas. Pede passagem.
Escrevo porque há palavras que, se não encontrarem o papel, permanecem dentro de mim como portas que nunca chegam a se abrir.
Escrevo para atravessar o que não consigo nomear.
Escrevo porque, enquanto escrevo, alguma parte de mim respira.
E talvez seja essa a minha única missão: transformar o silêncio em linguagem antes que ele se torne definitivo.
Escreva-me, diz alguma coisa dentro de mim.
Escreva-me antes que eu desapareça entre aquilo que senti e aquilo que nunca consegui dizer.
Escreva-me para que eu permaneça, não como quem encontrou todas as respostas, mas como quem teve coragem de deixar algumas perguntas abertas.
Porque talvez eu nunca tenha estado perdido.
Talvez eu apenas estivesse atravessando.
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