O INDIZÍVEL DAS RUAS
Minha alma vai se teletransportar para o indizível das ruas. Eu adormecerei em meus planos e repousarei em meu sono. Sonharei coisas magníficas, misteriosas e enigmáticas, dessas que parecem existir antes mesmo de serem sonhadas, mas não lembrarei ao acordar. E, quando eu acordar, tomarei um comprimido de restauração, uma caneca de café e um livro para leitura. Depois, ligo a TV, pego outra caneca de café para me despertar mais, acendo um cigarro, crio aquilo que chamam de inspiração e começo a escrever. Não sei se é inspiração. Talvez seja apenas o inconsciente encontrando uma fresta por onde possa escapar.
Será que vai ser às 9h20 da manhã? Ou às 10h20? Ou às 11h20? Ou não terá 20? Será 30, 40 ou 50? Não importa. O relógio marca o tempo, mas há tempos que não cabem em relógio algum. Quando se está deprimido, a beleza não é algo importante para mim. O amor é. Mesmo deprimido, o amor importa para mim. O amor de amigos, pais, irmãos, versos, linhas e eu contra eu mesmo, esse eu que, apesar de tudo, ainda me ama. Será? Talvez seja essa a parte mais estranha de estar vivo: descobrir que, quando tudo em nós parece querer desaparecer, alguma coisa permanece amando.
O amor transforma. É maravilhoso. Mas, até chegar à maravilhosidade, é preciso atravessar a sombra de um vaso quase morto, permanecer diante dele sem saber se ainda há vida naquela matéria silenciosa e esperar. Depois, alguma coisa acontece. Não sei o quê. Talvez seja isso que chamamos de milagre quando já não temos palavras para explicar o que aconteceu. E então o que parecia morte ganha uma espécie de magia.
Será que estou escrevendo de manhã? Ou será que estou escrevendo na madrugada? Sinto sono ainda? Talvez. Quanto mais escrevo, menos eu sei. Quanto mais eu sei, mais entendo que não devo procurar por mim. Há alguma coisa profundamente misteriosa em procurar aquilo que talvez só exista enquanto se perde. Talvez eu esteja justamente onde não consigo me encontrar. Eu apenas escrevo para deixar rastros dessa ausência.
E minha alma incorpora em meu corpo novamente, como se voltasse de um lugar onde eu não pudesse acompanhá-la, e o dia segue.
Que eu faça desse segmento uma travessia da minha linguagem. Não uma explicação, mas uma passagem. Não uma resposta, mas aquilo que permanece quando a pergunta já atravessou o corpo. É o esforço do meu eu com eu. O confronto silencioso entre aquele que escreve e aquele que tenta descobrir quem escreve. E mais que eu, só eu mesmo, esse estranho que habita em mim, que me desconhece, que me inventa, que às vezes me abandona, mas que, por alguma razão que nem a razão alcança, ainda permanece.
Talvez escrever seja isso: não encontrar a si mesmo, mas sobreviver ao intervalo entre um eu que desaparece e outro que insiste em nascer. E talvez o pecado esteja justamente aí, entre a falta e o delito, entre aquilo que desejamos e aquilo que não conseguimos dizer. Há transgressões que ninguém vê, culpas que ninguém acusa, faltas que não deixam marcas e delitos cometidos apenas contra aquilo que um dia fomos. Nem todo pecado precisa de um nome. Às vezes, ele é apenas a sombra de uma escolha que continua respirando dentro de nós.
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