Antes que a minha alma desperte
Gosto do silêncio das manhãs, quando os pássaros parecem saber alguma coisa que nós, ainda sonolentos, esquecemos de perguntar. Gosto do canto que atravessa a janela, do café coado, do açúcar que se dissolve na água quente e daquele amargo tão doce que só o café sabe ser. Há qualquer coisa de misterioso nesse primeiro gole, como se a vida, por alguns segundos, deixasse de exigir explicações.
Às vezes, não sei se despertei por inteiro ou se apenas meu corpo se levantou, enquanto minha alma, distraída, ainda procura o caminho de volta. Fico ali, sentado, quietinho, observando o mundo nascer sem precisar dizer palavra alguma. O dia começa, mas eu ainda não. Há manhãs em que despertar é um acontecimento do corpo; em outras, é preciso esperar que alguma coisa dentro de nós consinta em existir.
Gosto dos dias quentes, dos ensolarados, dos nublados e daqueles em que a chuva parece lavar os excessos do mundo. Gosto dos amores verdadeiros, de amar sem precisar transformar o sentimento numa explicação, do mar, do oceano, do horizonte e daquela linha impossível onde o olhar termina, mas o pensamento insiste em continuar.
Talvez eu goste tanto do horizonte porque ele me recorda que nem tudo precisa ser alcançado para existir. Há coisas que só podem ser contempladas de longe, como certas lembranças, certos afetos e algumas versões de nós mesmos que ficaram perdidas no caminho. Ainda assim, continuamos olhando. Como se olhar também fosse uma maneira de permanecer.
Gosto das boas companhias, dos velhos amigos e de relembrar experiências de trilhões de anos atrás - ou talvez de um tempo que, dentro da memória, adquiriu a grandeza de uma eternidade. Rimos do que fomos, das coisas que fizemos, dos caminhos que escolhemos e daqueles que não tivemos coragem de percorrer. E, por alguns instantes, o passado deixa de ser passado. Senta-se conosco à mesa, aceita uma xícara de café e participa da conversa.
Mas também gosto de estar só.
Há uma espécie de intimidade que só acontece quando ninguém nos observa. É quando posso permanecer diante de mim sem precisar sustentar a personagem que o mundo aprendeu a reconhecer. Não preciso parecer feliz, triste, forte ou resolvido. Posso simplesmente estar. E estar, embora pareça pouco, às vezes é a forma mais difícil de existir.
Gosto de ter meu dia de janeiro, às oito da manhã, quietinho, sozinho, sentado diante de um café e de um cigarro aceso, sem saber muito bem se estou vivo ou se apenas sobrevivi à noite. Há uma fronteira delicada entre essas duas coisas. O corpo respira, os olhos contemplam, o café esfria entre os dedos, mas alguma parte de mim permanece suspensa, como se ainda estivesse negociando com a existência os termos de sua chegada.
E eu espero.
Espero sem saber exatamente o quê.
Talvez seja isso que as manhãs tenham de mais bonito: elas não nos pedem respostas imediatas. O sol não exige que saibamos quem somos antes de iluminar a janela. Os pássaros não perguntam o que fizemos da vida antes de começar a cantar. A água ferve sem conhecer minhas angústias, e o café passa pelo coador sem perguntar quantas vezes precisei me reconstruir para chegar até aqui.
A vida continua acontecendo, mesmo quando ainda não conseguimos compreendê-la.
Levanto-me, vou até o fogão, coloco a água para esquentar, acrescento o açúcar, o pó de café e acompanho aquele pequeno ritual doméstico que, para tantos, talvez não signifique coisa alguma. Para mim, entretanto, há uma delicadeza quase sagrada nesse movimento. A água encontra o pó, o pó entrega sua cor, o aroma ocupa a cozinha e, de repente, aquilo que era apenas matéria se transforma em presença.
Coo o café.
E, enquanto ele atravessa o filtro, penso em quantas coisas também precisam atravessar alguma coisa dentro de nós para que finalmente possam ser sentidas. Há palavras que ficam presas na garganta, lembranças que sedimentam no fundo da memória, desejos que não encontram nome e dores que passam anos procurando um lugar onde possam repousar. Nem tudo se resolve. Nem tudo se explica. Algumas coisas apenas encontram passagem.
Talvez seja por isso que eu goste tanto de escrever nas manhãs: porque, antes que o mundo comece a falar por mim, tenho alguns minutos para escutar o que ainda não consegui dizer.
Tomo meu café com a sede de quem atravessa um deserto. E, de certa maneira, ainda estou atravessando o meu. Há dias em que a travessia parece interminável, em que o horizonte se afasta à medida que caminho e em que a esperança não aparece como uma luz grandiosa, mas como uma pequena insistência dentro do peito. Continuo porque alguma coisa em mim continua. E nem sempre preciso saber o nome dessa coisa.
Às vezes, basta não abandoná-la.
O café quente me devolve ao corpo. O amargo me recorda que nem tudo precisa ser doce para ser bom. O calor da xícara entre minhas mãos me ensina, sem palavras, que ainda existem pequenas formas de acolhimento disponíveis neste mundo. E eu, que tantas vezes procurei respostas em lugares distantes, descubro que algumas manhãs começam simplesmente assim: com água fervendo, café recém-coado e a possibilidade de permanecer mais um pouco.
Que não me falte café para os dias compridos, silêncio para os pensamentos que ainda não encontraram linguagem, amigos com quem eu possa rir das nossas antigas eternidades e coragem para olhar de frente aquilo que em mim ainda permanece desconhecido.
Que não me falte fé, sobretudo quando a vida não oferecer nenhuma garantia. E que a esperança não seja apenas uma promessa depositada nos dias que virão, como se a existência verdadeira estivesse sempre à espera, escondida depois de alguma curva.
Quero aprender a esperar menos pelo amanhã e a habitar mais profundamente o dia que me foi dado.
Agradeço pelo respirar, pelo pão de cada dia, pela saúde que Deus me concede, pela possibilidade de recomeçar e por essas manhãs tão simples que, vistas de perto, guardam mistérios que nenhuma palavra consegue esgotar.
Porque talvez despertar não seja abrir os olhos para o mundo, mas permitir que o mundo nos atravesse outra vez, mesmo depois de tudo.
E, enquanto o café esfria, alguma coisa em mim finalmente chega.
Não sei se é a alma, a esperança ou apenas a vida.
Só sei que a manhã me encontra aqui.
E, por hoje, estar aqui já é uma forma de milagre.
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