PSICANÁLISE E POESIA:
Entre meus anos de análise, descobri que a vida não tem cura. Descobri isso não nos livros, mas na carne. Naquilo que sangra por dentro mesmo quando ninguém vê. Nas palavras engolidas, nos silêncios que envelhecem dentro da gente, nas partes de mim que precisei encarar quando já não havia para onde fugir.
Talvez seja por isso que escrevo. Porque algumas palavras, quando não são ditas, apodrecem. E outras, quando finalmente encontram a escrita, respiram. A palavra escrita abre uma passagem para aquilo que durante anos ficou preso na garganta, escondido atrás dos dentes, enterrado em algum lugar onde nem eu queria procurar.
Quem sabe seja justamente aí que psicanálise e poesia se encontram. No lugar onde a linguagem deixa de ser apenas linguagem e passa a tocar aquilo que dói. No intervalo entre o que se diz e aquilo que, mesmo tentando, nunca conseguimos dizer completamente. Talvez até dentro de um setting analítico, quando uma palavra escapa sem planejamento e, depois dela, já não somos exatamente os mesmos.
Depois de trilhões de anos de análise, aprendi que não saí de lá curado. Talvez ninguém saia. Saí, algumas vezes, mais próximo das minhas próprias ruínas. E foi nelas que encontrei alguma coisa parecida com poesia.
A poesia virou minha base de sobrevivência. Não porque tenha conseguido me salvar, mas porque me ensinou a permanecer vivo dentro daquilo que não podia ser salvo. A psicanálise também, é lógico. Uma me ensinou a escutar o que insistia em retornar. A outra me ensinou a transformar o que doía em palavra.
Escrever, para mim, nunca foi apenas escrever. Foi sangrar sem precisar esconder o sangue. Foi deixar que aquilo que não encontrou voz encontrasse página. Foi continuar dizendo depois que a sessão terminava, quando o silêncio do consultório já não podia me responder.
Talvez eu escreva porque ainda existem coisas em mim que não têm cura, mas têm nome. E talvez nomear seja uma das formas mais honestas de não morrer por dentro.
Entre a psicanálise e a poesia, encontrei uma maneira de continuar. Não inteiro. Não resolvido. Não curado.
Mas vivo.
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