EU NÃO SOU ESCRITOR, EU SÓ ESCREVO
Nunca soube muito bem o que fazer quando alguém me chama de escritor. A palavra chega com uma espécie de importância que não sei se combina comigo. Talvez porque eu nunca tenha acordado pela manhã pensando: hoje serei escritor. Acordo, vivo, atravesso o dia. Em algum momento, alguma coisa acontece dentro de mim e, quando percebo, estou escrevendo.
Há algum tempo, alguém me disse que eu deveria ser um bom escritor. A frase poderia ter terminado ali, entre uma conversa e outra, mas não terminou. Ficou. Não exatamente como elogio, porque elogios também podem incomodar quando não sabemos onde colocá-los. Ficou como uma pergunta silenciosa: o que será que ele chamou de bom escritor?
Será que é aquele que conhece todas as regras da língua? O que não tropeça numa vírgula? O que sabe exatamente quando um ponto deve encerrar uma frase? Será aquele que consegue escrever algo que perturbe o leitor, que o faça voltar algumas linhas, desconfiar do que acabou de ler? Ou será simplesmente aquele que encontra uma maneira própria de dizer aquilo que ainda não encontrou nome?
Não sei.
E gosto de não saber.
Se eu tivesse uma definição pronta, talvez começasse a escrever para obedecê-la. E não quero. Não quero que a escrita se transforme numa tarefa com começo, meio e fim determinados por alguém. Escrevo quando alguma coisa me atravessa. Uma lembrança, uma inquietação, uma pergunta, uma ausência. Às vezes nem sei o que foi. Só sei que alguma coisa apareceu e pediu palavras.
Eu erro. Muito. A língua às vezes escapa de mim. Uma vírgula fica onde não deveria. Um ponto desaparece. Uma palavra se perde. Depois eu volto e conserto. Ou não. Há momentos em que releio e percebo que a frase poderia estar melhor. Há outros em que prefiro deixá-la respirar daquele jeito mesmo. Não faço da imperfeição uma bandeira. Também não faço da correção uma religião.
Talvez eu escreva justamente porque não sei organizar tudo o que sinto antes de colocar no papel. A palavra vem primeiro e o entendimento, às vezes, chega depois. Em outras ocasiões, nem chega. E tudo bem. Nem tudo precisa ser compreendido para existir.
Foi pensando nisso que aquela conversa sobre leitura crítica também começou a me incomodar. Criticar um texto pode ser necessário. Ler com atenção exige perceber o que funciona, o que sobra, o que falta. Mas existe alguma coisa além da correção. Existe o encontro. Quem lê também leva para o texto aquilo que não está escrito. Suas experiências, suas feridas, seus desejos, seus próprios fantasmas.
Talvez ninguém leia apenas o que está diante dos olhos.
Isso vale para a escrita e talvez valha para a vida. Passamos muito tempo interpretando os outros. O que o outro fez. O que deveria ter feito. O que disse. O que não disse. Onde errou. Onde exagerou. É curioso como somos capazes de construir diagnósticos para o outro com uma facilidade que não temos quando o assunto somos nós mesmos.
Talvez porque seja mais fácil olhar pela janela do que encarar o espelho.
Não escrevo por dinheiro. Se vier, será bem-vindo. Mas não é de onde parte a escrita. Um texto pode alcançar alguém que eu nunca verei. Uma frase pode ficar na memória de uma pessoa sem que eu sequer saiba disso. Essas coisas acontecem depois. Primeiro vem a necessidade de escrever.
Se eu escrevesse apenas para ganhar dinheiro, provavelmente estaria em algum lugar contando moedas, segurando uma caneca vazia e tentando decidir se pedia um real ou um café para colocar dentro dela. A imagem me diverte porque há alguma verdade nela: eu nunca soube muito bem transformar a escrita em cálculo.
Escrevo quando quero. Quando posso. Quando alguma coisa insiste. E, quando não escrevo, não estou escrevendo. Não há culpa nisso. Não há dívida. Há apenas silêncio.
Talvez seja esse o meu problema com a palavra escritor. Ela parece exigir uma permanência. Como se, depois de receber esse nome, eu tivesse de provar alguma coisa todos os dias. Eu não quero provar. Não quero sustentar uma imagem de mim mesmo diante de ninguém. Quero continuar podendo escrever uma frase ruim, apagar tudo, começar outra, mudar de ideia, ficar semanas em silêncio e depois voltar como se a palavra estivesse apenas esperando.
Então, se alguém me perguntar novamente se sou um bom escritor, talvez eu não saiba o que responder.
Eu não sou escritor.
Eu só escrevo.
E talvez, no fim, seja justamente isso que me interessa: não precisar saber o nome daquilo que faço para continuar fazendo.
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