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O Eu que Me Segura

Há em mim uma espécie de resiliência que atravessa quase tudo, talvez porque eu tenha aprendido a conviver com dois eus dentro de um corpo só. Um deles segura os restos. Os que fazem mal, os que fazem bem, os sintomas, as dores, as angústias, as tristezas, as impregnações e tudo aquilo que insiste em permanecer quando já deveria ter partido. O outro eu apenas me segura. E, enquanto eu tiver a mim mesmo, o desconhecido não me perturba. Talvez seja daí que venha minha metamorfose. A lagarta não sabe que será borboleta enquanto ainda está presa ao próprio casulo. O meu eu que carrega o que já não serve cava um cemitério dentro de mim, enterra o que precisa ser enterrado e não volta para desenterrar cadáveres. O que ainda tem vida, ele devolve. E alguma coisa em mim aprende a voar. Talvez azul. Talvez bonita. Mas, sobretudo, livre.

Sou dono do meu corpo, da minha cabeça, das minhas vontades e também daquilo que ainda não consegui realizar. Não gosto de conselhos. Se conselho fosse tão bom, degustaríamos uma carne de primeira com uma champanhe maravilhosa e faríamos um churrasco todos os domingos. Prefiro sugestões. Prefiro o desconhecido. Não nasci para ser adestrado. Nasci para andar ao lado de mim mesmo. Muitos têm medo da solidão. Eu não. Minha solidão nunca me abandonou. Ela talvez conheça partes de mim que ninguém mais alcança. Minha angústia também permanece, e dela quase sempre nasce alguma coisa. Um pensamento, um desvario, uma palavra, a escrita. Às vezes eu rogo, às vezes peço, às vezes apenas escuto aquilo que em mim não se cala. Se eu cair, do chão não passo. Do sagrado, levanto. E sigo atento.

Às vezes me canso da humanidade de gente. Desapareço por semanas ou meses e depois retorno ao meu estado habitual. Não é fuga. Talvez seja apenas uma maneira de voltar para dentro antes de conseguir voltar para fora. Eu me descrevo como uma metáfora da vida porque não escrevo para receber aplausos nem para ouvir que ficou bonito. Não tenho compromisso com palavras bonitas. Escrevo o que atravessa minha cabeça e chega às minhas mãos. Não tente me agradar. Não me prometa cuidados que você não pode oferecer. Neste ano, cuidei de mim. Sozinho e de pé. Caí um dia e levantei sete. Não é prepotência. É saber que, quando ninguém pode fazer o movimento por mim, resta-me fazê-lo. Não digo que não precise de outro. Digo apenas que, se eu não fizer algum esforço, nada acontece. O tempo não cura aquilo que permanece imóvel. O tempo apenas passa. E, enquanto ele passa, eu me atravesso, me desfaço, me reinvento e volto a mim. Sinto angústias horripilantes, mas continuo vivo. Estou aqui. E talvez seja essa a única certeza que realmente importa. Eu me amo e me considero um grande amor da minha própria vida. O resto é consequência. O que vier depois já não precisa ser promessa. Pode ser apenas vida.

ESCRITO POR Jorge Lannes Júnior 9 K leituras
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