Sentir-se útil
Certo dia, entre os vapores de um banho e os pensamentos que insistiam em me manter deitado, decidi lavar o banheiro. Havia tempos em que eu olhava para aquele espaço e prometia a mim mesmo que o faria, mas alguma coisa, cujo nome desconheço, adiava o encontro entre a minha vontade e as minhas mãos. Não sei se era preguiça, desânimo ou se havia em mim uma espécie de silêncio que pesava mais do que o próprio corpo. Há coisas que nos habitam sem pedir licença e nos paralisam sem deixar vestígios. Naquele dia, porém, enquanto esfregava o chão, as paredes e os cantos esquecidos, algo parecia se desprender de mim. O suor escorria, o corpo respondia, e o banheiro, pouco a pouco, deixava de ser apenas um banheiro: tornava-se a prova silenciosa de que minhas mãos ainda podiam transformar alguma coisa. Foi então que aconteceu. Uma fração de segundo, talvez menos, e eu me senti útil. Não houve aplausos, testemunhas ou qualquer acontecimento digno de ser narrado aos olhos do mundo. Houve apenas um homem, um banheiro limpo e uma sensação que, embora pequena aos olhos de quem observa de fora, ocupou um espaço imenso dentro de mim. E, como comigo quase tudo parece obedecer à tirania dos extremos, o banheiro logo me pareceu pouco. Pensei na cozinha, nos cômodos, na casa inteira. Por um instante, tive vontade de lavar o mundo, como se a sujeira do lado de fora pudesse ser removida com a mesma facilidade com que eu esfregava o chão. Havia uma força em mim que não sei de onde vinha, uma espécie de urgência em existir através do movimento, como se cada coisa limpa devolvesse ao meu corpo uma parcela de algo que eu julgava perdido. Mas mamãe estava por perto, e suas limitações me fizeram interromper aquela pequena revolução doméstica. Parei. Ainda assim, limpei meu quarto. Talvez eu estivesse tentando organizar o espaço ou, quem sabe, encontrar nos objetos fora do lugar alguma explicação para aquilo que, dentro de mim, não se deixava arrumar. Não sei. Também não sei se atravesso uma fase depressiva, melancólica ou qualquer outro território ao qual alguém possa atribuir um nome. Não me cabe transformar cada gesto em sintoma, cada silêncio em diagnóstico, cada movimento em prova de alguma coisa. Não nasci para ser adestrado, muito menos para viver aprisionado numa caixa de rótulos, como se a complexidade de uma existência pudesse caber numa palavra escrita em algum prontuário. Sou feito de contradições, de dias em que o mundo pesa e de instantes em que minhas mãos parecem capazes de sustentá-lo. E talvez seja justamente isso que me assuste e me encante: não saber inteiramente quem sou, mas ainda me surpreender comigo mesmo. Depois, sentei-me para escrever. E, enquanto as palavras se alinhavam diante de mim, percebi que havia outra forma de limpeza, uma que não exigia água, sabão ou força nos braços. Escrever também me devolvia alguma coisa. Talvez um pedaço de mim que eu não sabia onde havia deixado. Talvez a sensação de que, apesar de tudo, ainda havia algo que podia nascer das minhas mãos. E, por alguns instantes, não precisei compreender a minha tristeza, justificar a minha disposição ou encontrar um nome para o que me acontecia. Bastou-me reconhecer a experiência. Eu havia feito alguma coisa. Eu havia escrito alguma coisa. Eu estava ali. E me senti útil.
Há dias em que não se trata de limpar a casa, mas de descobrir que ainda existem mãos capazes de tocar o mundo sem precisar consertar a própria existência.
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