Tema

Datilografar-me

Como tem sido minha experiência de datilografar em uma máquina dos anos 60, quando eu sequer existia.

Hoje, entre teclas, erros e angústias, tento aprender a manusear uma máquina que já escrevia histórias antes mesmo de eu nascer. Talvez eu esteja aprendendo a datilografar; talvez esteja apenas descobrindo outras maneiras de me escrever.

Às vezes, tenho a impressão de que quero agradar demais. Mas o que seria agradar algo ou alguém? É impossível. Não sou dono das minhas verdades, muito menos das minhas mentiras. Ou melhor, que mentiroso sou eu. Das minhas mentiras, talvez eu seja proprietário. Há verdades que me escapam e mentiras que me obedecem. Ou será o contrário?

Estou cansado. Cansado de quê? Talvez de mim mesmo. Ou da vida monótona. Acendo um cigarro e fico como estátua, olhando para alguma coisa que possa me dizer algo sobre mim. Mas para que raios quero saber mais sobre mim? Há verdades que não iluminam: apenas retiram o escuro que nos protegia.

Sinto saudades do cheiro das rosas brancas, amarelas e azuis. Amo o azul, embora não saiba o que ele encontra em mim. Para cada flor, um cheiro; para cada sujeito, uma falta. Se até as flores precisam de sorte, imagina eu. Devo contar comigo mesmo, com meu eu e com meu eu mesmo.

O que será que escrevo? Nem eu mesmo sei, quem dirá o outro. Escrever é um enigma que nem eu sei decifrar. Não sei se me revelo ou se aperfeiçoo o disfarce. A palavra me aproxima de mim, mas deixa algo para trás: uma ausência que não se resolve, um desejo que muda de nome quando penso tê-lo compreendido.

Escrevo para me encontrar, mas é no que escapa que começo a suspeitar de quem sou.

Entre a falta, o vazio e o desejo, permaneço diante de mim, sem saber se procuro uma saída ou se aprendi a reconhecer a porta.

Por hoje, encerro aqui. A angústia, a falta, o vazio e o desejo ficam para o próximo encontro.

Até sábado. Me dá 3 títulos para esse texto, por favor.

ESCRITO POR Jorge Lannes Júnior 10 K leituras
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