O retiro que existe dentro de mim
Preciso de um retiro espiritual. Sair do mundo grande, da cidade do Rio de Janeiro, mas também não ir para a cidade de São Paulo. Preciso ir para algum interior, uma fazenda onde existam bois, vacas, galinhas e uma igreja. Uma igreja onde eu possa ir todos os domingos, como fazia aos quinze anos, quando tinha essa tendência de ir à missa. Depois, acender uma vela às dezoito horas, fincá-la na terra e deixar que a chama converse com aquilo que minha boca já não consegue dizer. Talvez a terra compreenda melhor certas coisas do que os homens. Não preciso viver sozinho, porque a solidão já vive comigo. Ela não ocupa espaço, não paga aluguel e, embora às vezes me faça companhia, nunca me pergunta aonde pretendo chegar. Também não precisarei de muito dinheiro para comprar coisas para comer. A vaca poderá me dar leite, as galinhas terão seus ovos, e as árvores, seus frutos. Talvez eu fique até mais saudável, respirando o ar puro, ouvindo os pássaros e descobrindo que o mundo continua existindo mesmo quando deixamos de olhar para ele.
A máquina de lavar roupa da mamãe faz tique-taque, tique-taque. Já está bem velhinha. Quando começa a fazer aquele barulho, é porque a roupa está sendo lavada. Mamãe não se desfaz dela. Papai comprou outra, dessas que dizem ser melhores, mas a novidade não deu muito certo. E talvez exista alguma sabedoria nisso: nem tudo aquilo que chega com a promessa de ser melhor consegue substituir o que já aprendeu a permanecer. Então levarei a máquina para a fazenda. E levarei mamãe também. Ela ficará comigo. Não sei se a fazenda terá sinal de internet, mas, se tiver, talvez eu publique outro livro. Se não tiver, escreverei assim mesmo. Porque não sou escritor. Ou talvez seja justamente por isso que continuo escrevendo. Publicar um livro não me transforma em escritor, assim como deixar de publicar não me retira aquilo que escrevo. São eles que dizem que sou autor daquele tal livro. Eu, por enquanto, só sei que escrevo. E isso, às vezes, já me custa uma vida inteira.
A cada vinte anos, talvez eu volte à cidade grande. Entregarei todos os manuscritos e retornarei à fazenda, antes que alguém me convença de que preciso ficar. Não quero morrer sem deixar minhas palavras, mas também não quero passar a vida inteira tentando provar que existo por meio delas. Quero cuidar das vacas, alimentar os bichos, montar a cavalo e sair correndo pelos campos, gritando qualquer coisa que não tenha nome. Quero ir à manjedoura, acordar cedo, aproximar-me da vaca e, antes de apertar suas tetas, pedir licença. Sim, pedir licença. Afinal, se vou beber de seu leite, que ao menos não me esqueça de que existe uma vida do outro lado daquilo que me alimenta. Há coisas que recebemos sem agradecer e outras que, mesmo agradecendo, jamais conseguiremos retribuir.
Mas não é exatamente para uma fazenda que desejo ir. A fazenda é apenas o lugar que encontrei para dar um endereço ao que não sei explicar. Preciso de um retiro espiritual que seja comigo mesmo, com meu eu e eu mesmo, sem testemunhas, sem a obrigação de parecer alguém, sem precisar responder quando perguntarem o que tenho feito da vida. Olho fixamente para esta janela e escuto o barulho das cigarras. Existe alguma coisa naquele som que me faz pensar que a natureza não precisa compreender o tempo para continuar anunciando sua passagem. Lembro-me de dezessete dias atrás, quando passei um dia inteiro sem falar. Fiquei mudo. Não sei se era silêncio ou se alguma coisa havia se cansado de atravessar a minha boca. O dia passou, e eu continuei ali, dentro de mim, como quem espera uma visita que talvez nunca chegue. Até que, quando chegou a hora da catedral, escutei o sino. E minha boca, depois de tantas horas fechada, pronunciou uma única palavra: Amém.
Não precisei pensar. A palavra saiu de mim como se já estivesse ali antes de mim, esperando que o sino lhe desse autorização para nascer. Amém. Foi quando pude entender alguma coisa que ainda não sei explicar por inteiro: Deus me ama. Não sei de que maneira, não sei por quais caminhos esse amor me alcança, nem por que, em determinados dias, preciso me perder tanto para perceber que ainda sou capaz de reconhecê-lo. Mas, naquele instante, não precisei de uma resposta. Talvez a espiritualidade comece exatamente quando a necessidade de compreender se ajoelha diante daquilo que simplesmente se sente.
Preciso desse lugar. De uma terra que me receba sem perguntar meu nome, de uma igreja cujo sino atravesse as árvores, de uma vela acesa às dezoito horas e de uma mãe que continue por perto, fazendo sua máquina velha bater tique-taque, tique-taque, como se o tempo ainda pudesse ser lavado e colocado para secar ao sol. Preciso conversar com os mortos. Não porque os vivos não tenham importância, mas porque há coisas que só consigo dizer diante da ausência. Os mortos não interrompem, não exigem explicações, não me pedem que eu seja diferente daquilo que sou. Talvez eu os procure porque já não espero deles uma resposta, e é justamente por isso que consigo escutá-los. Preciso da espiritualidade e que os mortos me salvem. Os vivos ajudam em alguma coisa, mas os mortos fazem mais. Eles permanecem onde o tempo não alcança, e há noites em que suspeito que certas mãos só conseguem nos tocar depois que deixam de existir.
Talvez eu nunca encontre essa fazenda. Talvez ela não esteja em nenhum mapa, nem tenha uma porteira, nem um curral, nem uma igreja de paredes descascadas. Talvez eu esteja procurando um lugar que não existe fora de mim. Ainda assim, quero ir. Quero descobrir se, longe do barulho da cidade, conseguirei ouvir aquilo que sou sem a interferência daquilo que fizeram de mim. Quero saber se, retirando tudo, ainda restará alguma coisa. E, se não restar, que a terra me ensine a começar outra vez.
Porque tenho desconfiado de que não preciso fugir do mundo. Preciso apenas deixar de pertencer a ele durante algum tempo.
E quando perguntarem por mim, não digam que fui embora. Digam que acendi uma vela às dezoito horas e entrei nela.
Talvez Deus saiba onde me encontrar.
E talvez os mortos já estejam me esperando.
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