Tema

O Resto que Me Resta

Eu não me explico, eu escrevo. Talvez porque certas coisas, quando tentam sair pela boca, se tornem explicações demais. No papel, ao menos, posso deixá-las existir sem precisar pedir desculpas por aquilo que são.

Hoje, um sábado, a angústia resolveu me visitar sem convite. Mandei-a embora, chamei-a de rameira e, como ela não parece ter respeitado minha autoridade, decidi escrever. Gritei dentro de mim que escreveria, como se a palavra fosse capaz de impor algum limite àquilo que não se deixa dominar.

E ela pensa que é quem?

Há faltas que não fazem barulho, mas alteram tudo. A minha, hoje, tem o preço de uma fita para a máquina de escrever e de alguns cigarros. Quero comprar ambos, mas não tenho dinheiro. Parece pouco quando dito assim, quase insignificante diante das grandes tragédias que se anunciam pelo mundo. Entretanto, a falta não precisa ser grandiosa para doer. Basta que seja nossa.

Quero, mas não posso. Sei o que desejo, conheço o objeto da minha vontade e, ainda assim, preciso conviver com a impossibilidade. É nesse intervalo entre o querer e o ter que a angústia encontra espaço para se instalar. A falta deixa de ser apenas financeira e começa a ocupar lugares que não lhe pertencem.

Então escrevo. Não porque a escrita compre fitas, pague contas ou acenda cigarros. Escrevo porque não quero deixar que o silêncio tenha a última palavra.

O resto que escrevo são só os restos. E, curiosamente, também escrevo comida. Mamãe está fazendo bolinho de chuva, embora nem chovendo esteja. A tarde, que começou atravessada pela falta, encontra na cozinha uma espécie de desobediência. Há bolinhos sendo preparados enquanto eu tento dar algum destino ao que me sobra por dentro.

Talvez seja disso que a vida seja feita, afinal. Daquilo que não conseguimos ter e daquilo que, sem alarde, ainda nos é oferecido. Uma vontade frustrada, um pensamento insistente, o cheiro de café, a lembrança de um cigarro e o cuidado de uma mãe que prepara alguma coisa boa sem precisar justificar a receita.

Não sei se isso alivia a angústia. Tampouco me interessa transformar cada gesto numa lição sobre a existência. Nem tudo precisa ensinar alguma coisa. Às vezes, o bolinho é apenas um bolinho, a falta é apenas uma falta e a angústia, essa inconveniente, é apenas a angústia.

Agora vou acender um cigarro, tomar café e procurar um tranquilizador para a alma. Não tenho grandes conclusões a oferecer. Tenho palavras, algumas faltas e uma certa indisposição para explicar o que sinto a quem não precisa sentir comigo.

Odeio explicações.

Escrevo o que me atravessa, recolho o que sobra e deixo que o resto encontre seu próprio destino.

Até breve.

ESCRITO POR Jorge Lannes Júnior 12 K leituras
124 textos
Um livro
Direitos Autorais

© 2026. Todos os direitos reservados ao autor. É proibido copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas ou utilizar comercialmente esta obra sem autorização expressa do autor.

±100 leituras
Classificação de conteúdo:
Seguro

Publicado
Denunciar conteúdo
Este conteúdo foi publicado por um autor da plataforma e é de sua responsabilidade. Ele deve respeitar a Política de Conteúdo do Portal Escritores. Caso identifique alguma violação, utilize o Fale Conosco.

Comentários


Mais textos deste autor