Desejo de Continuar
Eu só peço a Deus vontade de continuar. Para que, assim, venha algum desejo, porque de forças já não há mais. Não dá para ter forças uma vida inteira. E quando elas se acabam, é preciso encontrar alguma outra coisa que nos faça continuar de novo, mesmo sem saber exatamente o que devemos continuar. Para que eu não desista daquilo que eu nem sei se está concluído. Para que eu escreva algo ruim em um ano ruim e, paradoxalmente, em outro momento, escreva algo bom em um ano bom. E também para que eu escreva algo bom em um ano ruim e algo ruim em um ano bom, porque talvez a escrita não obedeça ao calendário, assim como nós não obedecemos inteiramente àquilo que pensamos ser. Minha linguagem pede escrita, fala, loucura e, ao mesmo tempo, uma lucidez, uma questão permanente de equilibrar-se. Olho para a direita em busca incessante de quem sou, do que sou e de onde sou. E, principalmente, de onde vim. É necessário saber disso. Mas não busco respostas demais. Busco apenas o que é preciso. Desejo de continuar. E o que desejo para mim é que eu nunca perca esse desejo, que eu possa pelo menos sobreviver em alguns dias e viver em outros, mesmo sem ter feito ou realizado aquilo que sonhei. É cansativo e exaustivo. Eu nem sei se ainda vai ser concluído, nem como vai ser. Há aquilo que escrevo, as finanças, as burocracias da vida, tantas coisas que fazem parte, tantas que precisam ser removidas. Como uma borracha que apaga o que foi escrito no papel, mas nunca completamente, porque sempre deixa rastros. Uns restos sempre sobrevivem. E talvez seja justamente neles que alguma coisa ainda permaneça, silenciosa, quase invisível, esperando que eu tenha novamente vontade de continuar.
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