Telefone
Quando eu era pequeno, ou melhor, aos vinte e poucos anos, sei lá quantos, eu acordava, fazia café e ligava para minha madrinha.
Passávamos horas no telefone, como se a manhã só começasse depois da voz dela.
Depois eu ligava para minha avó. E assim foi por muito tempo, por anos, até que minha madrinha morreu.
Talvez tenha sido o único luto que realmente tive.
Depois tentei repetir o ritual. Liguei para minha avó, tentei outras vozes, outras pessoas.
Mas nunca era a mesma coisa.
Até que deixei de ligar.
Hoje acordei diante do telefone sem querer tocá-lo.
Mas precisei.
Era só para passar estas palavras para um pequeno bloco de notas.
E foi então que pensei nela.
O telefone aproxima quem está distante.
Mas há distâncias que nenhum telefone alcança.
Minha madrinha está longe agora. Gosto de pensar que está bem.
E hoje eu não me lembro dela com a dor da ausência.
Lembro com afeto.
Com o café. Com as manhãs. Com a voz.
Com aquilo que ficou quando ela partiu.
Talvez algumas pessoas não desapareçam.
Apenas deixam de atender.
E continuam falando conosco de outras maneiras.
Talvez escrever seja isso:
uma ligação para quem já partiu, sem esperar que o telefone toque.
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