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A Morada que Nunca Me Esqueceu

E talvez me entregar de volta ao sagrado tenha sido o maior ato de lucidez que tive em minha vida. Não pelas melancolias ou pela depressão que senti, mas por reconhecer que existe alguma coisa maior que eu, maior que aquilo que consigo compreender, e que talvez seja justamente nessa falta de compreensão que exista um novo modo de existir. Não sou santo, mas também não sou promíscuo. Talvez nunca tenha sido sobre escolher um lado, mas sobre reconhecer que existe em mim alguma coisa que não cabe inteiramente em nenhum dos dois.

Saio às oito, chego à meia-noite; em outros dias, chego às três da manhã. Em outros, viro a noite. O corpo cobra. As costas doem, as pernas nem se fala, o cansaço vai tomando conta de tudo e, ainda assim, alguma coisa em mim permanece de pé. É curioso como o corpo pode estar tão cansado enquanto a alma parece ter acabado de acordar.

Não digo que o sagrado tenha me livrado da dor. Talvez tenha feito o contrário: tenha me devolvido a ela sem que eu precisasse fugir. Ainda haverá sofrimento, tristeza, melancolia, desejo, medo e todas essas coisas que a gente passa a vida tentando organizar dentro de si.

Mas talvez eu não precise mais organizá-las.

Talvez eu só precise atravessá-las.

A linguagem que me faz escrever é a mesma que me faz caminhar entre o mundo dos vivos. É com ela que tento dar algum contorno ao que não tem nome, embora eu saiba que, no instante em que encontro uma palavra, alguma outra coisa já escapou. Talvez seja por isso que eu escreva. Talvez seja por isso que eu caminhe.

E talvez seja por isso que eu tenha voltado ao sagrado: não para encontrar respostas, mas para suportar melhor aquilo que permanece sem resposta.

Confesso que existe alguma coisa no mundo dos mortos que me parece mais familiar do que deveria. Não sei se é porque já estive perto demais dele. Ou se porque, em algum lugar que a razão não alcança, ainda existe uma parte de mim que continua lá. Talvez nunca tenha voltado. Talvez tenha voltado diferente. E talvez seja justamente por isso que, quando me entrego ao sagrado, alguma coisa em mim reconhece o caminho antes mesmo de saber para onde ele leva.

ESCRITO POR Jorge Lannes Junior 7 K leituras
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