Morro por Dentro, Escrevo por Fora
Talvez escrever alguma coisa deixe alguma coisa. Pelo menos, foi isso que comecei a notar. Talvez seja uma maneira de não deixar que tudo aquilo que passa por mim simplesmente desapareça. Eu escrevo e alguma coisa fica. Não sei exatamente o quê, nem para quem. Mas fica. E talvez, algum dia, alguém encontre estas palavras em algum lugar, dentro de um livro, numa página qualquer, e se lembre de já ter passado por elas. Talvez diga: "Eu já li isso." E talvez não se lembre exatamente onde. No Recanto das Letras, no Instagram, em algum portal, em alguma madrugada. Não sei. Gosto dessa possibilidade de uma coisa que escrevi continuar existindo mesmo quando eu já tiver mudado.
Eu sempre precisei morrer por alguns dias. Às vezes por um mês, dois, três. No caso, alguns dias. É como se eu precisasse desaparecer um pouco de mim para depois conseguir voltar. Renascer talvez seja uma palavra bonita demais. Talvez eu apenas reapareça. Volto de algum lugar onde nem eu mesmo sei que estive. E volto das minhas próprias cinzas, aquelas que vomitei para fora, como quem não consegue mais sustentar dentro de si aquilo que passou tempo demais sendo carregado.
Talvez seja por isso que eu estranhe esse estranho que parece existir dentro de mim. Há alguma coisa que me habita e que, ao mesmo tempo, me é desconhecida. Quanto mais tento compreender, mais parece haver alguma coisa escondida atrás daquilo que consegui compreender. O mundo me odeia ou será que sou eu que odeio o mundo? Às vezes penso que é uma coisa. Às vezes, outra. E talvez não seja nenhuma das duas. Talvez seja apenas o estranhamento de estar aqui, entre pessoas que parecem tão certas de quem são enquanto eu continuo desconfiando de mim.
As pessoas parecem querer se passar por outras. Vivem vidas que não são delas, experimentam verdades que não sentem, repetem palavras que aprenderam que deveriam dizer. E talvez já nem percebam mais a diferença entre aquilo que desejam e aquilo que lhes ensinaram a desejar. O mundo está cheio de pequenas mentiras que já não parecem mentiras. Produtos falsos sendo vendidos como verdadeiros, promessas embaladas como certezas, soluções rápidas para dores que levaram anos para nascer. "Leia este livro e em sete dias você vai melhorar." Ora, alguém que está tão mal talvez compre mesmo. Talvez compre porque precisa acreditar em alguma coisa. Talvez leia porque precisa que alguém lhe diga que existe uma saída. Mas será que vai melhorar? Ou será que não?
Porque um livro que serve para mim talvez seja um veneno maldito para o outro. Uma palavra que me atravessa de um jeito pode atravessar outra pessoa de maneira completamente diferente. É cada um que precisa descobrir, por si mesmo, a sua forma de conviver com o mundo para, depois, conseguir usar a palavra viver sem transformá-la em mais uma promessa. Talvez seja por isso que eu desconfie tanto das fórmulas prontas. A vida não parece obedecer a sete dias, nem a sete passos, nem a páginas numeradas.
Na medida em que eu mais me conheço, eu me desconheço. É uma contradição que talvez faça algum sentido justamente porque não precisa fazer sentido o tempo inteiro. Quanto mais retiro uma camada, aparece outra. Quanto mais penso que encontrei alguma coisa, descubro que estava diante de outra pergunta. Eu me desconstruo, eu mesmo me quebro e eu mesmo vou me lapidando. Não sei se isso é reconstrução. Às vezes é só remendo. Às vezes é cola. Às vezes é pegar aquilo que quebrou e tentar descobrir se ainda existe alguma maneira de juntar os pedaços.
E me ergo de pé. Às vezes, me ergo deitado. Às vezes, nem sei se me ergui. Talvez eu só tenha aprendido a permanecer. E talvez permanecer também seja uma forma de viver, embora ninguém escreva livros prometendo ensinar alguém a permanecer.
Agora olho para a televisão. Coloquei aquela meditação antes de dormir e vejo o cenário: árvores, uma casa, um lugar isolado, como se fosse uma fazenda. Fico olhando aquilo e penso que talvez fosse num lugar assim que eu gostaria de ficar. Longe de tudo. Não necessariamente para desaparecer, mas para escutar o que existe em mim quando o mundo finalmente fica quieto. Só eu, os bichos, a casa, o café e os livros. Não menciono a escrita porque ela já vem carregada dentro de mim. Talvez seja justamente por isso que eu não consiga fugir dela. Ela aparece quando eu não estou procurando. Às vezes, antes mesmo que eu perceba, já estou escrevendo.
Fui dormir às nove da noite e acordei às duas da madrugada. Quando me dei conta, estava escrevendo. Talvez eu tenha acordado justamente para isso. Talvez o corpo tenha me arrancado do sono para devolver alguma coisa que durante o dia eu não consegui dizer. Talvez seja só insônia. Talvez seja outra coisa que ainda não sei nomear. Talvez amanhã eu leia isso e não reconheça exatamente o homem que escreveu. Ou talvez reconheça demais.
Depois eu vejo.
Agora eu escrevo.
E talvez, em algum horário mais próximo, eu consiga dormir de novo.
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